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02/02/2020

[Report] Quinto Ano à XXXapada [Na Tromba]

O XXXapada na Tromba é um festival de música extrema que já dispensa apresentações. Para as bandas de death/brutal/slam, este é um evento que já faz parte do circuito da música do género e para os fãs... é vê-los a chegar a Portugal/Lisboa vindos dos 4 cantos do mundo. O ambiente que se vive entre organização, bandas e público é familiar e de muita diversão e, mais uma vez, foi um sucesso, tendo em conta que foi um evento sold out.

DIA 1

O primeiro dia tinha hora marcada de início às 18 horas, o que, para uma sexta-feira, dia de trabalho, poderia afectar o pontapé de saída do Xxxapada. No entanto, quando os Diaroe subiram ao palco, a sala do RCA já estava composta para os acolher. Os alemães terminaram o show de barriga cheia.



Antes da pausa para o jantar, ainda ouvimos o brutal death dos espanhóis MDMA, que, tal como a droga, deixou os fãs em êxtase. Ao vivo trocaram a máquina por um baterista, que realçou a brutalidade nua e crua da sua sonoridade. A seguir, na lista, era vez do brutal death/gore técnico dos ingleses Twitch of the Death Nerve, que revisitaram temas mais antigos e apresentaram alguns sons novos, que agradaram a quem já povoava a sala.



Já depois da hora de jantar, era chegada a vez dos portugueses Bleeding Display e talvez o primeiro concerto da noite pelo qual o público realmente aguardava. Os primeiros minutos serviram para a matilha se juntar na plateia, que nem o derby lisboeta conseguiu afastar do RCA Club. O horário escolhido para esta banda foi uma boa aposta da produção do evento, com os primeiros maiores circle pits a “aumentarem de tom”. Como já é habitual, Sérgio Afonso subiu ao palco ensanguentado e, claro, o machado continua a ser o seu adereço imprescindível. Os guturais fora de série ecoaram, juntamente com os demais elementos da banda, durante cerca de 30 minutos, onde não faltaram a Killing Spree e a Remains To Be Seen, esta última acompanhados pelos convidados, também de peso, Diogo Santana e Tiago Correia, de Analepsy.
Seguiram-se os Acranius, que traziam na bagagem o EP de festejo dos seus 10 anos de existência “The Echo of Her Cracking Chest”. O seu slam/deathcore foi bem recebido, uma vez mais, pelos fãs do Xxxapada, que aderiram em massa aos constantes breakdowns bastante característicos da banda alemã.



A sala do RCA Club já estava bastante cheia à hora de Holocausto Canibal. Esta banda já com 23 anos de experiência estreou-se neste festival à grande! Desfilaram vários clássicos, mas também algumas novidades, com as letras sempre cheias de gore e perversão. Este espectáculo ficou também marcado, a certa altura, pela troca de papéis entre o vocalista Orca e o baterista Diogo.
A próxima banda do alinhamento do evento era, sem dúvida, uma das bandas internacionais mais aguardadas deste festival, os Unfathomable Ruination. A promover o seu álbum lançado em novembro do ano passado, “Enraged & Unbound”, dispararam brutalidade em todos os sentidos. Tiveram um som à altura e não deixaram o público esmorecer um único segundo. Na sua setlist não dispensaram o grande single Defy The Architect, que no álbum conta com a participação de Julien Truchan de Benighted.



Se no Xxxapada na Tromba não há falta de brutal death metal, também é correto dizer que não dispensa uma [grande] pitada de grindcore! Se a noite já estava agitada, o reboliço estava a chegar de Espanha, com os Nashgul. Chegaram e depositaram os seus temas originais (nomeadamente El Día De Los Muertos, do seu ábum de 2009) num crescendo de energia que atingiu a sua apoteose com a versão de Crucificados De Sistema, dos Ratos de Porão, com todo o público a acompanhá-los de forma efervescente.
Outro momento aguardado desta noite, estava destinado aos Spasm. Esta era a estreia do trio checo no festival e ficou marcada, com toda a certeza, na memória dos presentes… principalmente pela sua indumentária: o vocalista Radim pediu emprestado o mankini fluorescente ao Borat e acrescentou ainda uma máscara com um enorme pénis… que priceless! A verdade é que foram cerca de 40 minutos de alvoroço no palco e na plateia, sem que tenha faltado à sua setlist a divertida Suck My Dick!, extraída do álbum “Pussy (De)Luxe”.



O primeiro dia terminou com os nacionais Raw Decimating Brutality, num horário já avançado, mas nem por isso se sentiu uma debandada… todos queriam ficar até ao fim! A banda da Guarda trouxe para palco a sua “Era Matarruana”, cheia de brutal death metal e humor.


As bolas de praia e os intermináveis “mergulhos” para o público faziam adivinhar um segundo dia igual… ou melhor!



DIA 2

O início do segundo dia estava marcado igualmente para as 18 horas e se, por um lado, todos estavam "cheiinhos" de energia para extravasar, também outros havia em que se notava que a noite anterior tinha acabado bem para além das 3 horas da manhã!
A curiosidade para ver ao vivo, largos anos depois, os lisboetas Cronaxia fez com que o público fosse pontual. A brutalidade e qualidade das músicas está lá… porém a falta da secção rítmica (no disco a cargo de Rolando Barros e Alexandre Ribeiro dos Grog) em carne e osso em cima do palco, e o metódico “play” das pistas pré-gravadas para arrancar os temas, não foi um ponto a favor na sua prestação live. Mas a vontade de tocar, ainda que desta forma, é de saudar.


O que vinha a seguir só não foi, para mim, uma surpresa geral, pois fui surpreendida antes, aquando da preparação do Especial XXXapada na Tromba, para o meu programada de rádio. Os russos ByoNoise Generator têm uma sonoridade completamente fora, aliando o grindcore ao jazz, muito por causa do saxofone, claro. Poderíamos falar em Grindcore Experimental? Acho que sim. Outra curiosidade desta banda são os nomes artísticos dos elementos que a formam, todos com uma frequência Hertz (Hz) diferente. É certo que não são os pioneiros nesta junção de estilos supostamente opostos, porém, foi um concerto interessante e que captou a atenção de todos os presentes.


Ainda antes da pausa para o jantar, tocaram os espanhóis Disturbance Project. A sua prestação foi bastante competente, com bastantes conterrâneos numa plateia despida precocemente, algo traídos pelas bandas que ninguém podia perder a partir das 21 horas.
E foi exactamente a essa hora que a euforia provocada pelos Party Cannon começou. Esta banda escocesa faz a festa dentro da própria festa. Pior (ou melhor!) só mesmo outra banda, portuguesa… mas sobre essa, já lá vamos. Muito slam e brutal death com uma grande pitada de humor é o que a banda promete… e cumpre.

Os Analepsy, em versão trio, apresentaram-se sem atrasos para uma plateia já completamente cheia para vê-los. Não fossem os imprevisíveis problemas técnicos que aconteceram e teria sido uma performance perfeita, aliás, como já nos habituaram. No entanto, a atitude dos elementos da banda esteve sempre fixa em proporcionar um bom espectáculo e tornar memorável o adeus de Diogo Santana à voz e guitarra dos Analepsy.
Seguiram-se os Rectal Smegma, colectivo holandês de goregrind que, ao longo da sua carreira, mostrou a sua capacidade em construir grooves massivos, capazes de movimentar qualquer público. Assistimos a um espectáculo que misturou o goregrind com os vocais poderosos e violentos aos momentos hilariantes de interacção com o público.


Aquele que considerei ser o bandão do festival preencheu o slot que se iniciava às 23h30. Falo, como é óbvio, dos Malevolent Creation. Com uma discografia de death metal invejável e na bagagem o seu último “The 13th Beast”, lançado em janeiro de 2019, os norte americanos fizeram as delícias dos seus fãs. Ver Phil Fasciana, fundador da banda nos anos 80, a um palmo de distância e ouvir alguns clássicos do álbum “The Ten Commandments” foi uma emoção bastante grande para os seus seguidores e a plateia estava visivelmente rendida a este encanto. O pior de tudo foi o fim do concerto… só porque foi bastante antes do que gostaríamos!
Para quem não os conhecia, tenho a certeza que ficaram fãs dos Cytotoxin. A base para os seus bem estruturados temas é o desastre de Chernobyl, ao ponto de auto intitularem a sua música de Chernobyl death metal. O adereço da banda é um bidão “tóxico” que se tornou no centro do circle pit durante o concerto. Os alemães proporcionaram-nos cerca de 35 minutos de brutalidade e técnica absolutamente esmagadoras, em forma de músicas que mais pareciam contos sombrios de desastres nucleares.



Ora bem, se os Party Cannon sabem o que é fazer uma festa, os Serrabulho são os que deitam os foguetes, fazem uma festa de arromba e só não ficam é no fim para limpar! Além de se fazerem anunciar como “os verdadeiros Malevolent Creation”, ainda nos proporcionaram um dueto improvável com o radialista de sons pesados António Freitas no tema Sweet Grind O’Mine. Entre pulos, comboios, barcos insufláveis e invasões de palco, esta é uma banda que não defrauda o seu público.



Defraudante foi a última banda da noite, os Kadaverficker que, com o adiantado das horas e todo o alcóol que não ficou por consumir, acabaram por dar um espectáculo a roçar o decadente. Os muitos e muitos anos de estrada ainda não os ensinaram a aguentar alcóol, tornando o seu “tempo de antena” aqui um pouco desconsolador.



Já passava da hora normal de terminus quando o festival fechou as suas portas. Mais um Sold Out para um evento e respectiva produção que merecem as nossas mais sinceras palmas. Os sorrisos de “orelha a orelha” de Rita Limede e Sérgio Páscoa denunciaram o que, entretanto, vieram a confirmar: o XXXapada na Tromba 2021 é uma realidade e está marcado para os dias 22 e 23 de janeiro. Lá estaremos!

Texto: Sabrine Lázaro
Fotos: Ricardo Branco (Todas As Fotos Brevemente)
Agradecimentos: Xxxapada Na Tromba

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