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02/04/2015

[Report] Moita Metal Fest 2015 - 1º dia (27/03/15)

Lá passou mais um Moita Metal Fest e como sempre a SFTD Radio marcou presença... A romaria de negro tornou-se tradição e metaleiro que se prese não falta. Os cartazes de grande nível  relembram-nos que acima de tudo não faltam grandes bandas no nosso país e o ambiente único é só por si um ponto a favor e de difícil comparação. O espírito de camaradagem e comunhão transcende os estigmas que por muito tempo se perpetuaram : este é um festival que une várias "tribos", que foge dos elitismos e que serve de exemplo os amantes do DIY (Do It Yourself). Este é um festival que nos enche de orgulho e mais uma vez fomos obrigados a sublinhar tamanho sentimento.
Se na noite anterior os Vader e os Hate tinham enchido o Paradise Garage, na de sexta-feira o público metaleiro poderia ter ficado dividido entre o primeiro dia do MMF e a apresentação do novo álbum dos Moonspell no Coliseu dos Recreios. A realidade provou um resultado bem diferente e que de certa forma contrariou todas as bases da matemática: o público multiplicou-se e encheu ambos os recintos. 
Ficaram guardados no bolso os discursos de excesso de oferta. Quando há este nível de qualidade, batalhado anos a fio em ambos os casos, o público não fica indiferente. Nem S.Pedro ficou e mais uma vez deu o seu contributo e brindou-nos com dois belos dias de Primavera. Estavam reunidas todas as condições para mais uma edição memorável.
Jackie D
Por volta das 21H entraram em palco os primeiros músicos dando início ao desfile de nomes de peso para todos os gostos e feitios.
Coube aos Jackie D a honra de abrir tamanha celebração do que tão bem se vai fazendo pelo mundo da música nacional. 
Uma carta fora do baralho metal mas que no último ano, e a par de outros exemplos, foi ganhando o seu espaço no circuito nacional com o álbum de estreia Symphonies of the City.
Depois de rodarem na estrada ao lado de nomes como Low Torque, sempre dentro do imaginário do Rock mais musculado, não temeram o público da Moita e isso certamente se deve à experiência ganha em projectos anteriores.
Numa altura em que a confirmação dos Grankapo no Hardcore Pool Party poderia pôr em causa a continuidade deste projecto o quarteto respondeu com novos temas (não estão incluídos no álbum) em palco. O conhecido vocalista "Fuck", um ícone do hardcore português, demonstrou, mais uma vez, que não se deixa limitar ao estigma dos vocalistas de vertentes mais punk. O homem sabe cantar, gostem ou não, isso já são opiniões e cada um tem a sua...
Sem ceder demasiado às tendências Stoner muito em voga actualmente, o seu rock premiou o público com dinâmicas mais fuzzy e passagens rítmicas mais groovescas demonstrando que nestes géneros nem sempre uma guitarra tem de se fazer passar por duas para se destacar. No entanto é nas linhas de baixo que os Jackie D primem pela diferença criando por vezes momentos mais funk. Exemplo disso é o single "This City" que arrancou os primeiros coros da noite. Os detalhes mais característicos de punk rock, que volta e meia surgem nas suas músicas, serviram de catalisador de uma incessante movimentação no Mosh Pit que perdurou durante os dois dias.

Imprevistos de última hora ditaram uma alteração no horário. 
Os Switchtense largaram as mil e uma tarefas implícitas na organização deste festival e correram para o palco de forma a colmatar a vaga momentânea deixada pelos Terror Empire.
A jogarem em casa o resultado dificilmente poderia ser negativo. Até à data não fora e ainda não foi desta vez.
Switchtense
No mesmo palco onde ficou gravado o seu primeiro e único DVD ao vivo, a banda de Hugo e companhia atacou os seus êxitos que já fazem parte da banda sonora destas andanças faz algum tempo. No entanto, foi com dois novos temas que apresentaram a sua Setlist explosiva. "All or Nothing" demonstrou toda a pujança que podemos esperar do próximo álbum. Sem dó seguiu-se "Super Fucking Mainstream" que prime pelo fast-pace bem característico do Thrash Metal mas com o carimbo próprio da banda. Não mexeram na fórmula vencedora nem inventaram progressismos desnecessários. Continuam a primar pela sonoridade "in your face" que só não conhece quem ainda anda a dormir. Não será por esta via que alcançarão uma maior base de fãs mas os que já o são assumidamente (e não são poucos) se sentirão ressarcidos certamente.
Switchtense
O resto do concerto fez-se em formato best of. Não faltaram os singles " Right Track", "Into the Words of Chaos" assim como a poderosa "Face Off". 
Os primeiros circle-pits da noite comprovaram mais uma vez que, independentemente dos horários na programação, na Moita estes rapazes serão sempre cabeças de cartaz. Não o são por mera cortesia e nós como público compreendemos e aplaudimos.
Não poderíamos deixar de referenciar o excelente trabalho do novo baterista Antonio Pintor que se provou ao nível dos seus antecessores. A evolução desde o Mazefest, por exemplo, é clara. Adicionaram uns tantos kg e isso fez-se sentir no peso da gravidade. Há que encarar isso como treino de musculação para o pescoço.
Já não restam pretextos desnecessários para celebrar o seu estatuto na cena nacional: são a maior banda do seu género e a melhor das provas está nas influências claras que provocaram noutros projectos que andam pela estrada fora. Agora venha lá esse álbum!

Terror Empire
Na vasta plateia temeu-se por breves momentos que os rapazes de Coimbra não conseguissem picar o ponto nesta edição do MMF. 
Tal não aconteceu e os Terror Empire compensaram tudo com o seu metal cheio de influências de Thrash mais clássico, a par dos primeiros álbuns de Sepultura, assim como volta e meia partiam a loiça toda com break-downs sólidos e paredes de som demolidoras que muita tentativa de death metal tem dificuldade em atingir...
De facto, tal como no exemplo anterior, nunca tentaram reinventar a pólvora e é por aí que foram conseguindo construir, passo a passo, a sua carreira e que neste momento merecem estar sob as luzes da ribalta graças ao bem fresquinho "The Empire Strikes Black".
Um claro ataque ao topo das listagens para melhor de 2015 e ainda vamos no primeiro semestre do ano.
Terror Empire
O tecnicismo nas linhas e solos de guitarra trazem pormenores a valorizar no som da banda mas infelizmente na Moita, possivelmente fruto do conjunto de adversidades que marcaram a sua jornada até chegar ao recinto, a grande produção presente no álbum ficou apagada perante alguns problemas de som.
No entanto há vários aspectos que abonam muito a favor da banda.
Primeiro, quem os tenha visto na sua última passagem pelo mesmo palco e repetido a experiência na passada sexta-feira terá notado uma clara evolução e maturidade acrescida. Estão mais confortáveis e isso remete directamente para o segundo aspecto : os novos temas são a prova de identidade própria que de certa forma faltava e que certamente orgulha os seus autores. O conforto de tocar temas com produções assim é certamente outro.
Com o devido sound check este seria muito provavelmente a melhor prestação dos Terror Empire que tenhamos assistido. "The Servant" e "Good Friends Make the Best Enemies" são alguns exemplos de temas marcantes na sua passagem pelo Moita Metal Fest.
Não deixa de ser interessante ver a vaga de bandas neste registo sonoro que estão a vingar pela Península Ibérica com grandes registos de estúdio e concertões ao vivo. E no caso dos nuestros hermanos não me refiro apenas aos nossos já queridos Angelus Apatrida.

Seguiu-se o concerto mais old-school do festival e que ficou a cargo dos bem experientes Iberia.  
Iberia
Em tempos, não faltavam grandes nomes de Hard Rock a rodarem no mainstream e no mundo do NWOBHM dissecava-se tudo até ao mais ínfimo pormenor. Houve espaço até para o Glam Metal tal não fora o entusiasmo...
Muita da geração mais velha, ainda resistente e presente neste tipo de eventos / convívios, tem para si a esperança que os anos gloriosos do metal ( assim como do rock feito para encher arenas ) voltem um dia, nem que por breves momentos. Vê-se nos seus olhos e ouve-se na sua música. Os Iberia são uma prova da teimosia da velha guarda e que deve ser saudada por quem respeita todos os momentos que formam o Metal em todas as suas vertentes.
Os coletes de ganga e as botas de biqueira de aço foram tirados do baú e frente ao palco lá estiveram, mais uma vez. Sem vergonha ou embaraço perante o público mais jovem que começa agora a dar os primeiros passos e que se atropela na busca do mais rápido, do mais pesado ou do mais barulhento... 
Por vezes é bom voltar às origens para relembrar como cresceu o mundo da música pesada.
De facto, "Hollywood" pode não ter caído no goto do metaleiro mais extremo mas soube a revivalismo: em tempos a música não tinha vergonha de entreter nem ninguém se envergonhava de ser entretido. 
De qualquer forma ficou evidente que quem fez a festa foi quem ficou a ganhar. Provou-se a máxima de que velhos são os trapos e a Sociedade Filarmónica virou um Estádio Olímpico. Não teve fogo-de-artíficio, insufláveis nem detalhes espalhafatosos mas teve garra, espírito, alma! Fez-se jus a aqueles refrões que foram escritos para serem cantados por multidões.
Respirou-se Rock'n'Roll. 
O vocalista Hugo Soares deu o seu melhor puxando sucessivamente pelo público com temas mais interactivos como "Fuck the Teacher" mas volta e meia era Jorge "Slash" Sousa que roubava as atenções com os seus solos de Les Paul em riste.
Os Iberia fizeram por merecer o seu lugar cimeiro neste primeiro dia e o público junto ao palco trocou as movimentações mais violentas pelo clássico air-guitar. Nos seus rostos esteve espelhado a diversão. A banda ficou claramente lisonjeada. Um momento bonito de se ver nesta primeira noite de festival.

More Than a Thousand

A fechar a noite os headliners More Than a Thousand, que muito contribuíram para encher a sala e trazer muitos estreantes, conseguiram meter a multidão a largar litros de suor e a puxar pelas cordas vocais.
Se desde cedo o ambiente energético se fez sentir, naquela altura em concreto os níveis ascenderam. O seu público era claramente mais jovem e dado a vertentes de som mais modernas. Provavelmente mais familiarizados com o Metalcore característico do novo milénio, esta geração pós-Nu-Metal não se deixou intimidar pelos habitués...
More Than a Thousand
A moldura humana foi por si só um espetáculo. Os crowd surfers demonstraram-se em número superior à capacidade de absorção na plateia mas a banda soube lidar bem com a situação. A sua simpatia para com os fãs foi clara em todos os momentos.
No que toca aos aspectos sonoros assistimos ao oposto do que tínhamos encontrado no Paradise Garage no término do ano passado: o som demasiado produzido e apontado para um cenário clubbing perdeu parte do seu impacto naquele contexto de festival. Não é no som mais rasgado que vão buscar os seus pontos positivos e o espetáculo está montado com apontamentos semelhantes a prestações de bandas electrónicas. Vasco Ramos é um mestre de cerimónias antes de ser um vocalista e isso faz toda a diferença na forma como maximizam as suas prestações ao vivo.
Mais uma vez foram os temas de Vol.4 Make Friends and Enemies ("It's Alive"' "Roadsick",...) e Vol.5 Lost At Home ( "Heist", "Feed the Caskets", "Fight Your Demons",...) que marcaram a setlist para claro agrado do público. 
O espetáculo está claramente estudado do princípio ao fim e momentos como "We Wrote This Song About You" com Fabio Baptista dos Hills Have Eyes ou o momento a solo do vocalista em "In Loving Memory" (cujo os acordes têem escrito Deftones por todo o lado) são prova disso, funcionando na perfeição. 
Dois momentos que perdurarão na memória dos presentes, entre outros certamente, são o coro de vozes sentido em "Cross My Heart"  e "No Bad Blood" que fechou a noite em grande nível. 
More Than a Thousand
Não foi o melhor concerto que já assistimos dos More Than a Thousand mas mais uma vez foi claro que arrastam multidões, fazem delirar a sua base de fãs e continuam a adicionar outros tantos a cada passagem. A sua internacionalização ainda é desconhecida de muito do público português mas é um facto. Esta é uma das bandas cuja sua singularidade poderia ter sido um reduzido prazo de validade em Portugal mas que na realidade ditou a entrada num circuito bem maior. Um exemplo para os mais ambiciosos. "Sigam os vossos sonhos" - a frase dita em palco deve perdurar.

Quando as luzes se acenderam tornaram-se visíveis os sorrisos nas faces. O público estava claramente satisfeito. 
O saldo da primeira noite foi claramente positivo mas no dia seguinte esperava-nos uma maratona de peso diverso. As ressacas e as dores de corpo teriam de ser adiadas. A casa cheia rondou certamente os records do festival deixando a fasquia bem alta para a noite seguinte que já se perspectivava com uma enchente maior... Ao fim de apenas 5 concertos a edição 2015 já se candidatava a uma das melhores de todo o seu historial.

MOITA C******!!!
Terror Empire
Switchtense
Iberia
More Than a Thousand
Texto: Tiago Queirós
Fotos: Nuno Santos
Vídeos: Nuno Santos / Tiago Queirós

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