21/11/2018

[Report] ELDER e DESERT SMOKE no RCA Club


Lisboa, 13 de Novembro de 2018

Se há algo que todo o contribuinte apoiante de cultura gosta de ver é uma sala de espectáculos cheia...e foi bonito ver um RCA encher a uma terça-feira à noite, para a missa dos Elder e dos Desert Smoke...e que bela missa...

Está confirmada que a escolha musical de Garboyl Lives (Ricardo e Telma... os fundadores do Sonic Blast Moledo) agrada também muito para o sul do país. Já este ano, depois de Colour Haze, Voivod e Sasquatch (exclusivamente no Porto) os stoners do sul compareceram em força no RCA em Lisboa para assistir aos Stoned Jesus (no início do mês) e Elder.

E a noite começou logo a aquecer com o som quente e sideral dos lisboetas Desert Smoke, quarteto composto pela sólida dupla bateria/baixo, Cláudio e Nogueira, Romão a coordenar os pesados acordes de quinta e riffs deixando Rocha nos seus característicos óculos escuros a domar a brava MockingBird...
Apresentaram de rajada, o seu EP Hidden Mirage (ver bandcamp da Raging Planet) quase na totalidade, dando ainda espaço para Mystic Lunar Ship e uma noa malha ainda sem titulo...

Apesar da prematura vida dos Desert Smoke, juntos desde 2016, já levam no seu palmarés concertos em alguns bons recintos rock do pais (Stairway, Woodstock69, RCA, Sabotage, Cine-Incrível entre outros) bem como a participação em pelo menos três festivais, nomeadamente na edição de 2018 do mítico Sonic Blast Moledo à beira da piscina, onde dividiram palco com os compatriotas Solar Corona e Astrodome.

De referir que têm muito espaço para progredir, nomeadamente na parte da interacção com o público (para evitar aqueles "awkward silent moments" entre as paragens das malhas ou até para que o público consiga associar alguma imagem visual às viagens sonoras propostas por estas bandas exclusivamente ou quase exclusivamente instrumentais)...mas que apesar disso já apresentam uma franca qualidade técnica aliada a um bom entrosamento entre os seus elementos que resulta numa sublime personalidade sonora latente em todos os seus temas...

E seguiram-se os "próximos grandes"...
Depois de dois intensos verões a promover o seu bem cotado álbum de 2017, "Reflections of a Floating World", incluindo o nosso já referido Sonic Blast Moledo logo no início, eis que os Elder voltam ano nosso pais para encerrar a estrada antes de se concentrarem em novas aventuras.

Nota-se que o público português tem grande estima por este trio, agora convertido em quarteto, que tão bem mistura as tonalidades cavadas de uns Sleep, como de repente quebra a densa neblina com uma melodia à la ColourHaze...
Nestas bandas quase exclusivamente instrumentais, que muitas vezes colocam o público num momentum de transe colectivo, ora de olhos fechados, ora a abanar o capacete em perfeita sintonia, a retenção da setlist é algo que nos passa muitas vezes ao lado, levando-nos a concentrar nos detalhes e na prestação dos seus executantes...

Na linha da frente esteve sempre o baixista (e canalizador!) Jack Donovan que é sem qualquer sombra de dúvidas o motor desta banda, com uma performance muito musculada sempre a sacar do seu Rickenbacker os ritmos mais assincopados até com o polegar da mão esquerda!!! 
Lá atrás mais escondido, quase despercebido, encarregue das peles, senta-se Matt Couto, o típico baterista de stoner consistente e responsável por ligar toda a amálgama de sons gerados pelos melódicos, neste caso, Nick di Salvo e Mike Risberg, que parece ter ganho o seu lugar na banda, quer seja a tocar teclados ou a partilhar os ritmos e solos com Nick que volta e meio também tenta cantar uns versos...
A magia começou e rodou muito à volta do último trabalho mas ouve ainda tempo para clássicos como Compendium, III ou Dead Roots Stirring, tudo malhas pequeníssimas, ricas em texturas sónicas calcadas em diversas camadas como um mindfuck tão bem engendrado para nos tirar da nossa área de conforto... Elder está para a música, como Memento ou Magnólia está para o cinema... Nem toda a gente gosta, nem toda a gente percebe da mesma maneira e seguramente se descobrem cenas novas cada e outra vez que se vê e se ouve !!!

Seguramente que muitos saíram do RCA com melodias magrebinas na boca e a noite toda a sacar riffs na tola !!!

E para o ano há Moledo outra vez !!!

Texto: João Pereira
Fotos: Sónia Ferreira / World of Metal

Agradecimentos:
Garboyl Lives
Raging Planet
World of Metal pela cedência das fotos


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