19/05/2016

[Report] SWR Barroselas Metalfest XIX (Dia 1)

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Este dia começou mais cedo (às 17h) com uma das melhores revelações dos últimos tempos, os M.I.L.F aka Music In Low Frequencies 'encabeçados' pela pequena/grande Mariana Faísca e vindos de Braga. 
Este trio uniu-se em 2011 precisamente depois de juntos idealizarem esta banda num destes eventos em Barroselas, sendo que 5 anos depois cá estiveram, a mostrar o que valem.
A linda 'pequena' Mariana soltou o seu vozeirão e dominou o palco de forma a que deixou, logo nos primeiros acordes, o público colado como se fossem atingidos por um trovão. Uma presença enorme, desta minhota, que inundou o recinto de expectativa e interesse.
Foi a primeira de muitas mulheres em palco neste evento. Diria até que houve uma particular diferença este ano precisamente por isso, as várias mulheres presentes a atuar nestes magníficos palcos proporcionando-lhes finalmente momentos de destaque e brilharete na ribalta nacional e internacional.
Desfilaram os temas do seu mais recente trabalho 'Sowing the Seed' sem inibições e deram um concerto intimista que impressionou todos pela positiva.
Podemos dizer que se agregou um misto de empoderamento feminino neste evento, com as várias participações 'delas' com as suas bandas e a sua beleza distribuída pelo público! Foi bonito de ser ver tantas mulheres este ano, evidenciando o lado mais bonito desta Irmandade, não obstante que a velha máxima dos metaleiros, feios, porcos e maus, também já não existe há muito tempo, pois haviam também muitos e belos exemplares de virilidade e beleza masculina. Um regalo!

A seguir tivemos os REPRESSÃO CAÓTICA, representando também o movimento crust/punk deste evento, foram entre muitas, uma das bandas do género, que causou impacto imediato.
 A expressividade do vocalista com um semblante 'enraivecido' elevou ao rubro o público que se pôs a dançar animadamente em frente ao palco. Um belo concerto que se assistiu com o regresso ao evento desta banda e com o seu mais recente trabalho na calha o 'Esquema Forjado', onde eles pretenderam disseminar as suas ideias relativas ao mundo que está a desmoronar-se em todos os sentidos à nossa volta, assim diziam as guitarras!. Resultou em cheio e os temas, cantados pelo Gonçalo Costa, são temas bem ligados ao degredo social que se vive nos dias de hoje. Nomes como' Farsa Eclesiástica',' Libertação Animal', 'Fábrica de Sonhos', 'Cultura do Medo' ou 'Vítimas do Ódio' são letras e músicas dos temas que refletem como um espelho, a indignação social destes tempos.
Um belo show!

No intervalo regressámos a tenda para jantar enquanto alguns já se deslocavam à Dungeon para assistir à missa negra liderada nos palcos principais por LUX FERRE.
Esta banda de black metal trouxe o seu mais recente trabalho ‘Excaecatio Lux Veritatis’ e segundo os comentários, foram exímios na homilía negra fazendo as delícias do público que assistiu.
Não é o meu género musical favorito, mas pelas reviews e dissertação dos comentários nas redes sociais mereceram o seu lugar aqui. Assim sendo, têm com certeza o nosso apoio, como banda nacional.

Seguiram-se os WEB e por esta altura o assador ainda queimava e ao longe podia ouvir-se a euforia do público que acarinhava esta banda vinda do Porto como se fosse da família! 

Os músicos já andam juntos nesta estrada de sucessos há 3 décadas e representam uma história que todos nós devemos lembrar, visto terem sido uma das bandas que abriu caminho para muitas que hoje vão surgindo, em Portugal. 
Tiveram uma participação especial do Miguel Inglês, vocalista dos Equaleft e a sala que, segundo comentários, esteve a meio gás foi o suficiente para estes bem humorados músicos darem speed nas guitarras e um bom show!
No o seu estilo thrash/doom/progressivo encantaram com o seu mais recente trabalho 'Everything Ends' e entoavam-se no camping em coro as músicas mais antigas como 'Mortal Soul', acelerando assim os ânimos para voltar ao recinto e continuar a saga dos Steel Warriors como mandava a tradição.

Naðra (leia-se NADRA) são uns Islandeses que por cá estiveram e trouxeram mais uma omilía negra, com o seu nome que significa 'vibora'! Este projeto deu origem outro a já conhecido e que tocariam na mesma noite e também na Dungeon, os MISTHYRMING.
O som dos Naðra é um black metal mais old school e a banda lançou este ano dois trabalhos, o EP 'Forn' composto por duas faixas, 'Forn' que significa 'antigo' e 'Fórn' que significa 'sacrfício'. O vocalista, rugindo e gritando acompanhado de um blast-beat tempestivo parece demonstrar neste trabalho, tanta dor e angústia expressando-o num canto irregular, juntando umas guitarras que uivavam cheias de agressão e hostilidade. Um trabalho profundo e obscuro.  É uma música energética , bem executada, com um compasso rapid-fire consistente, com a angústia e a agonia expressa, mas não há contudo muito no black metal que sobressai para mim, com especial distinção.
O álbum 'Allir vegir til glötunar' ou “Todos os caminhos para a destruição” é o 1º álbum de Naðra  com 3 faixas no side A e duas no side B, um álbum que marca a expectativa criada em volta deste projeto. Uma das mais ansiadas pela tribo, neste evento.
A cenografia tem sido um registo em cada apresentação em palco, desde as vestes, às pinturas negras na cara e braços, expressões corporais até ao jogo de luzes e decor das bandas, foi um evento muito visual em que os músicos encarnavam os personagens dos seus temas ou cumpriam o ritual da missa negra, com tudo o que o momento merecia! Inclusive algumas performances teatrais brutalíssimas que falarei mais à frente que com a ajuda e participação do público, cumpriram-se presenças animadas!

De seguida tivemos a banda surpresa da noite e mais uma vez com uma mulher como vocalista, os SINISTRO
Enquanto muitos torciam o nariz ou desconheciam totalmente este projeto com 5 anos, a vocalista  Patricia Andrade, pregou-nos de repente, a todos, ao chão de coração aberto para ouvir cada sílaba dita, preenchida com umas guitarras pesadíssimas, envoltas em melodias hipnotizantes... Um colosso de emoção subiu ao palco e foi irresistível ver a banda portuguesa que nos trouxe o seu trabaho, 'Semente' e alguns temas do seu 1º trabalho 'Sinistro'.
Deram um concerto com o seu rock ambient/dark/Sludge/Doom/Post-Metal cheio de movimento e música extremamente bem feita, com sonoridades electrónicas que fundiam os sentimentos de espanto e a graciosidade obscura, que assistíamos em palco.
A expressão corporal e da dança da vocalista enfeitiçava cada um de nós de uma forma sublime. Os mais cépticos renderam-se com um sorriso quando Patricia entoa algumas notas típicas de fado num dos temas de uma forma fria e dura, exprimindo-as nos movimentos bruscos e dançando em mistério.
Nada nos escapou daquele momento, daquele concerto, mas não saem as palavras certas para descrever o que se viveu ali. Uma surpresa em todos os sentidos! Sei que andam já pelo mundo a marcar presenças e cada uma delas trazendo novas aventuras e têm sido incansáveis na estrada fazendo sucessos, mas quando soubemos que seriam os substitutos de Aborted devido a um cancelamento de última hora, nunca pensámos que nos iriam avassalar com tamanha qualidade! Muito bom concerto e uma banda a seguir, sem medos!
Os músicos que já estiveram/estão ligados a projetos como We Are the Damned ou Volstand, Atentado ou F.E.V.E.R. criaram um estilo de música novo, carregado de brutal expressão negra e são uma surpreendente lufada de ar fresco neste circuito! O temas rasgando as lonas do recinto, ecoando com as vocalizações e guitarras doomescas foram um arrepio cantado e dito em português, que provocou um movimento pendular do público em êxtase!
Foi um dos melhores momentos do evento, a presença dos SINISTRO, no SWR!

Altura para uma pausa e digerir a música e mantê-la no ouvido. Fomos jantar. 
Entraram a seguir os DEMENTIA 13 vindos do Porto com o seu Death Metal e o seu mais recente trabalho e primeiro álbum, ‘Ways of Enclosure’ com temas que já são um sucesso como 'Brotherhood of the Flesh' e depois seguiu-se TAAKE vindos da Noruega, o nome significa 'nevoeiro', uma banda já bem conhecida desde '95, que trouxe o seu fuzzy black metal e são sempre uma explosão em palco.  
Trouxeram o seu último trabalho gravado em 2014 o ‘Striden Hus’ e tocaram um dos meus temas favoritos ‘Det Fins En Prins’ ou Existe um Príncipe’, referindo-se ao das trevas, claro está. Hoest adoptou no concerto uma posição teatral com os braços cruzados por detrás da cabeça em representação do rei do mal, que vimos numa pintura de arte negra da artista Tzara Penelope Sigalov-Heldt, apelando à adoração maléfica do público que reagiu em êxtase e veneração, um belo momento do show!
Parecem assustadores e 'do mal' mas conseguem ser cativantes, a sala estava cheia e com uma atmosfera intensa e o público reagia a cada riff de guitarra ou palavra de Hoest caracterizado como um filho de satan, com um headbang venerativo. É uma das minhas bandas favoritas do género.

Eu ia-me juntando aos Steel Warriors e só voltamos às salas no final de HARK que nos chegam de Liverpool à Dungeon, com o seu mais recente trabalho 'Crystalline' em estilo Sludge/Stoner Metal/Rock e preparam-se para um novo lançamento em breve. As gravações foram interrompidas para virem a este evento! Veredicto final: Excelente Sludge/punk metal! Grandes riffs! Regressámos ainda a tempo do último tema e ver as cabeças em profundo movimento pendular e para absorver mais uma banda com as expectativas em altas na Abyss, os DOOM.
Grande concerto de DOOM ! Trouxeram-nos o seu mais recente trabalho 'Consumed To Death' com 5 temas que giram em volta de uma visão anti consumista e anti ganância deste sistema corrupto a nível mundial. Palavras de ordem como' Don´t bye!' estão implícitas em todas letras deste EP e gravações da voz de Obama e outros 'malfeitores' deste sistema foram ouvidas, elucidando o público desta 'miséria' e apelando à rebeldia.
A voz rouca de Denis acompanhada de uma batida punk crust arrebatou o público em turbilhão e num cicle pit infernal. Impossível não dançar e juntar-se à festa que por esta hora estava ao rubro!
Esta banda foi formada nos finais dos nos 80, mas o falecimento do 1º vocalista devido a uma crise epilética que obrigou-os a interromper a viagem mas regressaram em força em 2010 e aí estão, vindos de Halifax, no Reino Unido e de Alingsås, na Suécia, para conquistar o mundo em anarquia! Um dos concertos mais energéticos do evento!

MISTHYRMING sobem a palco já conhecido pelos elementos deste agrupamento que pertencem também a NADRA de onde ‘descendem’ e já referidos mais acima.
É o regresso da missa negra e mais um momento de oração satânica! Apresentaram o seu mais recente trabalho de 2015 o 'Söngvar elds og óreiðu' que significa 'Canções de fogo e caos' e o que define este som é escuridão, sofrimento, caos e morte. Eu suponho que é justo tomar nota que as bandas islandesas são notavelmente consistentes em qualidade e o isolamento frígido e puro do lugar, desempenha bem o seu papel na estética típica do black metal. Para a minha contribuição do diálogo crítico, eu poderia simplesmente rotular MISTHYRMING  como uma banda 'inovadora' de Black Metal. É fácil confundir o avant-garde e o ecletismo sem sentido, estes mudaram o ritmo para algo novo. A grande parte do álbum é alimentado por um ataque frenético da banda em palco, com o corpo pintado de negro, focando-se proeminentemente no dark ambient e é seguramente um trabalho para ouvir com atenção do inicio ao fim. Um bom concerto!

Cálices de 'sangue' entornados e seguem-se no Abyss os FREDAG DEN 13:E ou 'Sexta Feira 13', mais uma banda nórdica, vinda da bela cidade de Gotemburgo, na Suécia. Voltámos o registo punk crust e ao corropio do público na sala! Uma banda que já anda no circuito há mais de dez anos e que mudou recentemente de vocalista com o abandono de Anders no passado mês de Março.
Trouxeram o seu álbum gravado em Julho, o ‘DOMEDAGAR’, que significa ' Dias de Julgamento' com temas fortíssimos contra o fascismo que tem vindo a crescer na Europa e que a banda deixa bem claro estar contra, com guitarras rasgadas e animação pululante ao que o público se rendeu e correspondeu com saltos e sorrisos divertidos, mesmo não entendendo uma palavra do que se dizia! Uma combinação perfeita entre o black metal e o rock n roll que resultou em cheio nesta noite.
Depois deste exaustivo concerto regressámos à tenda e não vimos as duas últimas bandas que subiram a palco na Arena.
Os portugueses VAEE SOLIS, também liderados por uma mulher, a Sophia e que vinham apresentar o seu álbum lançado o ano passado 'Adversarial Light' e o seu mais recente EP 'Oppositional Lucent' em estilo Blackened Doom Metal, também não vimos SCUM LIQUOR, vindos de Lisboa com o seu Heavy Metal/Punk Rock e suas últimas edições 'Vicious Street Scum' e 'The First Live Vomit' ambos com o som perfeito para o espírito brutalmente animado e alcoólico, que finalizou esta noite!

Texto: Stanana
Fotos: António Gaspar (todas as fotos deste dia aqui)

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