22/01/2015

Entrevista | Veinless

PURO VEINLESS

Num momento crucial da sua carreira, os Veinless preparam-se para virar mais uma página da sua história, ao entrarem na fase final de edição do novo trabalho que, garantem, trará algumas boas surpresas. Do contínuo esforço para aprimorar e imprimir a identidade da banda nas suas composições, resulta agora um álbum que promete ser intenso, com lirismo e sonoridade fortes, impregnado das atrocidades da vida mas, ao mesmo tempo, com poder reativo e reflexivo. O vocalista António Boieiro abriu um pouco a embalagem deste novo trabalho, do qual quisemos conhecer alguns dos ingredientes. A dificuldade em encontrar rótulos adequados confirma o que já esperávamos: puro Veinless, foi o único ingrediente encontrado. 

É assim a música em Portugal: é preciso muita paixão, muita dedicação e muita paciência.
António Boieiro

SFTD Radio: Veinless surge frequentemente associado ao subgénero “thrash metal”, mas quando vos ouvimos, nem sempre confirmamos essa associação. O vosso género é uma mistura das vossas variadas influências?

António Boieiro: Quando os Veinless se formaram há 10 anos, com o núcleo duro formado pelo Roger, Kronos, Eddie e Thrash e pelo vocalista Paulo, tinham uma vertente mais thrash, que continuou com o vocalista seguinte, o Saraiva. Quando ficaram sem vocalista, eu ofereci-me “para dar uns toques” e eles gostaram. Entretanto, o baixista Eddie saiu e regressou há cinco anos. Depois de ele voltar, começámos a criar a nossa identidade. Já tínhamos as pessoas com quem nós sabíamos que podíamos trabalhar, e já podíamos criar um som mais próprio. Aliás, este álbum novo vai ser muito eclético, com algumas surpresas, não vai ser algo linear. Vamos utilizar algumas das minhas artes vocais que ainda não tinham sido utilizadas e teremos coisas que acho que não são rotuladas, que têm a ver com o querermo-nos afirmar e acho que é esse o caminho: afirmarmo-nos como uma banda que não possa ser rotulada. Criar cada vez mais a nossa identidade. Teremos mais músicas cantadas em português porque estamos a apostar na nossa língua. Cada vez mais o caminho é não rotular a banda como thrash ou rock… É Veinless. Todos temos influências de diversas áreas, todos nós gostamos de fazer coisas diferentes. Tudo ajuda a que possamos gostar de várias vertentes musicais e há uma grande abertura que parte de todos os elementos. Eu propus começarmos a cantar em português e eles acharam que sim porque, neste momento e dentro deste género, não há ninguém a cantar em português. É a aposta de Veinless. O nome é que não há-de mudar para “Sem Veias”… Acho que não há problema em um gajo cantar em português e manter o nome em inglês…

SFTD:   A vossa demo é de 2003 e o primeiro álbum é de 2012. Foram precisos mais 3 anos para surgir o segundo álbum. A que se devem estes grandes intervalos temporais?

A.B.: Os intervalos devem-se precisamente às mudanças de vocalista, à saída e regresso do baixista. Nestes últimos anos, depois de eu entrar e de o Eddie voltar, temos levado isto mais a sério. Gostaríamos de viver disto, mas não é possível. Já não é mau termos conseguido dinheiro para nos irmos auto-sustentando, fazendo concertos, e temos tido público porque o mais importante mesmo é termos pessoas que gostam de nós.

SFTD: Qual a data prevista para o lançamento?

A.B.: A nossa intenção é de que saia em Março/Abril. O que demora mais tempo no álbum não é propriamente a gravação ou a produção. É depois todo o trabalho gráfico. A gravação em si não é muito demorada, o resto é que é.

SFTD: Como é neste momento lançar um álbum em Portugal? Passaram por grandes dificuldades para fazerem este trabalho?

A.B.: Passámos por algumas dificuldades mas, felizmente, temos muita gente que gosta de nós e que nos acompanha. Os Veinless não somos só nós cinco, temos gente que nos tem ajudado muito em vários níveis: no merchandise, no aluguer do estúdio, no grafismo, na elaboração do vídeo, etc. No primeiro álbum, fomos nós que fizemos tudo, toda a produção foi nossa. E tivemos críticas boas a todo esse trabalho. O primeiro álbum foi muito nosso e este também vai ser assim.
Para lançar um álbum em Portugal, cada vez mais, o caminho é sermos auto-suficientes, não depender de editoras, de managers, não depender de nada. Claro que dá trabalho, chatices, dores de cabeça e, muitas vezes, fazem falta determinados conhecimentos. Neste momento, não temos manager, tratamos de tudo. E do vídeo também fomos nós que tratámos, que está a ser feito pelo nosso amigo João Pina. Felizmente, temos muita gente a ajudar. É assim a música em Portugal: é preciso muita paixão, muita dedicação e muita paciência.

SFTD: E em relação às temáticas exploradas? Mantêm-se as do álbum anterior?

A.B.: Continuo a ser eu a escrever as letras e as temáticas vão desde a crítica social, como no tema Basta, Besta (só o nome já diz alguma coisa), até a um tópico que é tabu: a eutanásia. Passa por outra temática que é a do imaginário de Johnny, the real, personagem que aos 17 anos já vendia droga para sustentar a família. Passa pela realidade social, e passa também pela toxicopedência. Portanto, é um álbum muito focado, mais uma vez, nas questões sociais. Fala-se também do dia-a-dia, de ter que se lidar sempre com a mesma rotina, de viver aprisionado, de ser artista numa sociedade com as características da nossa.

SFTD:   Mas o álbum também deixa passar algum otimismo em relação a estas questões? Também apela ao combate e à reação, ou transmite só a mensagem de alerta?

A.B.: Tem as duas componentes: de alerta e de reação.  Não vale a pena só lamentar e dizer que está mal. Também desperta. O Wake up transmite essa ideia de despertar, de aprender a ver as coisas de outra maneira, de não se deixar seguir pela carneirada. Cada um de nós é uma superpotência (há aqui um pouco também de esoterismo), tem que se conhecer a sim mesmo, tem que se trabalhar por dentro. A solução não é reagir da mesma forma como nos atacam. É preciso passarmos a ver o mundo de outra maneira e a criar as coisas também de outra maneira, e resolveremos tudo de modo diferente e, se calhar, mais simples.

SFTD:   Sabemos que és grande apreciador de Literatura Portuguesa, especialmente de poesia. Estes autores que te acompanham nas tuas horas de lazer, e também de trabalho, estão presentes neste álbum?

A.B.: Não estão presentes com a poesia deles mas quero acreditar que estão presentes com alguma influência na escrita de muitas coisas. É engraçado que ganho sempre alguns vícios de cada um deles. Quando fiz “Uma noite com Fernando Pessoa”, no Cine Incrível, escrevi muitos poemas onde se podia identificar a presença de Alberto Caeiro, que é o heterónimo de que mais gosto. O próprio Pessoa dizia que ele é que era o mestre… E o Almada Negreiros também. O tema Basta, Besta é um bocado Almada Negreiros e A Cena do Ódio. Sim, sem dúvida que estão presentes. Era um bocado impossível não estarem. Quando declamas alguém, tens que sentir o que eles sentiram.

SFTD:Têm planos para concertos brevemente?
A.B.: Por enquanto não temos nada. A ideia é focarmo-nos na gravação do álbum e do vídeo, e então, quando tivermos tudo pronto, começarmos a abrir portas. Há sítios onde gostaríamos de ir e onde nunca fomos. Gostávamos de ir a alguns sítios em Lisboa: o RCA Club, a República da Música, o Sabotage, são sítios onde gostaríamos de ir. O Side B, também, sempre que nos quiser lá. E o Cine Incrível… é praticamente a nossa casa. Gostam de nós, acarinharam-nos e apadrinharam-nos, desde sempre.

SFTD: E é fácil encontrar sítios para tocar neste momento, fora desta zona (Margem Sul), onde já são conhecidos?

A.B.: Fazer uma tournée em Portugal é muito dispendioso. Nesta zona, para nós não é muito difícil de arranjar concertos. O que nós queríamos era sair daqui e isso é mais complicado porque pôr uma tournée a andar custa dinheiro. Fomos, por exemplo, a Portalegre porque havia um equipamento camarário e havia algum apoio financeiro. Puderam apoiar-nos com as refeições, fomos muito bem tratados e bem recebidos mas, só com portagens e gasolina, não tirámos nada para nós. Eu acho que também tem a ver com o estilo de música. Infelizmente, em Portugal, o que é popular não é o metal, nem o gótico, nem o punk, nem o rock, nem nada do chamado alternativo. Felizmente, vão surgindo alguns locais, como o Side B, que se tornou um local de passagem mesmo para bandas internacionais em tournée, e consegue manter-se, com muito trabalho, eu sei. Surgiu o RCA Club e a República da Música, o Popular Alvalade… Fecharam algumas salas, como o Ritz Club, sala espetacular. Aqui em Almada, temos, felizmente, o Cine Incrível, o Ponto de Encontro, a SREF (onde ensaiam, atualmente, nove bandas de estilos variadíssimos e que tem concertos quase semanalmente), e o Cineteatro do Ginásio Clube de Corroios. Ainda se vão conseguindo alguns espaços para tocar.

SFTD:   Finalmente, como apresentarias o novo álbum?
A.B.: Mais português, com crítica social, com alguma mística nos temas, com uma analogia com o nome. E esperem… que não vou abrir mais o jogo.

Entrevista: Sónia Sanches
Fotos: António Gaspar

Agradecimentos: Ao Cine Incrível, pelo espaço gentilmente cedido.

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