23/06/2017

[Report] Mastodon e Black Peaks @ Sala Tejo Meo Arena, Lisboa


Apenas 15 anos separam o lançamento de Remission do mais recente Emperor of Sand. Pelo meio contamos outros cinco álbuns sempre aplaudidos pela crítica como pelos fãs: será que já podemos afirmar os Mastodon com um dos grandes nomes da história da música pesada?
Na Sala Tejo do Meo Arena, em Lisboa, encontrámos a resposta.

Mastodon é hoje um nome longe de ser associado ao Plistocénico [1]. Pelo menos no seio da música.
O imponente animal que outrora pisou a nossa Terra e que baptizou este quarteto até podia medir mais de 3 metros por umas assustadoras 7 toneladas mas a obra destes norte-americanos faz-lhe jus: peso, imponência e mística. Uma sonoridade com identidade e laivos de progressivo que nos apaixonou a todos.

Fizeram por merecer o estatuto que vários lhes apontam e que os catapulta para o leque de bandas que podemos afirmar, sem medos, serem elite na história da música pesada. 


Aqueles que se consideram cépticos em relação a isso estão apenas a perpetuar a fase da negação a todo o custo.
Uma discografia de sete álbuns que tanto mistura temáticas conceptuais com músicas com carisma, "catchiness" e com a difícil capacidade de nos elevar a moral.
O consenso é claro e a capacidade criativa foi retribuída pelo sucesso.
E ao vivo? Nem sempre vimos concerto imaculados...

Como são, hoje em dia, os Mastodon em palco? Era essa a questão para a qual fomos em busca de resposta.


Pontualmente às 21h, como previsto, os Black Peaks entraram em palco perante uma multidão bem maior do que a que recebeu recentemente a banda de suporte de Ghost que tocaram na mesma sala este ano.
Poucos dos presentes se podiam assumir familiarizados com o trabalho destes ingleses por isso a curiosidade se sobrepunha à expectativa.
Rapidamente se percebeu que o pesado tom pós-rock destes rapazes caiu nas graças do público português.

Passagens melódicas intervaladas com momentos de catarse groovesca com uma dinâmica explosiva quanto baste para dar início aos primeiros mosh pits da noite. É certo que falamos de algo muito próprio e difícil de agradar a todos mas não duvidamos que muitos que estranharam também entranharam.

Para tal, muito contribui a prestação frenética e espetacular de um baterista que traz muito acréscimo de valor a esta banda.
Se os At the Drive In fizerem metade então dificilmente não sairão de Paredes de Coura coroados como os melhores da edição 2017.

Entretanto se quiserem pesquisar mais sobre a banda convém saber que outrora eram os Shrine...

Se houvesse um equivalente ao Oscar de melhor actor secundário, teríamos aqui um nomeado ao prémio de banda de suporte neste 2017 repleto de grandes concertos.


De forma a seguir as recomendações lançadas nos últimos dias, tentámos hidratar-nos de cevada mas, como nós, umas belas dezenas de pessoas desistiram desse objectivo: as filas para os bares tomaram proporções absurdas aos quais nos recusámos a sujeitar. O preço a pagar para garantir um belo lugar frente ao palco mas que poderia ser evitado com uma melhor preparação. Todos sabemos que isto de ser metaleiro dá sede.

Com a sala cheia, certamente próxima de atingir a lotação, o aguardado quarteto subiu sob fortes aplausos.
Sem nos apercebermos bem, esta fora já a sua 8ª vez no nosso país. Feito assinalável quando conseguimos nos recordar de grande parte delas de forma singular.

Ao som do opener de Emperor of Sands ("Sultan's Curse") confirmou-se um foco na promoção deste que é já um forte candidato a álbum do ano.

Imediatamente se percebe que a dupla Troy Sanders e Brent Hinds requisitava para si grande parte das atenções do público.
Brann Dailor na bateria, o carismático baterista multi-funções, teve alguns problemas iniciais em fixar o volume perfeito mas nada que diminua minimamente a prestação ao longo da noite. Já Bill Kelliher manteve-se focado em olear a sua máquina de fazer riffs.

"Divinations" soltou os primeiros de muitos coros na noite.

O público deixou claro desde início que se os quatro dessem tudo, seriam retribuídos.

Assim foi. Aquela bateria, que não engana, soltou as feras face ao sempre furioso "The Wolf is Loose". Tal como no álbum seguiu-se a igualmente eficaz "Crystal Skull".
Blood Mountain, que fora o segundo álbum mais revisto da noite, esteve presente em diversos momentos do concerto.
Já de The Hunter e Once More 'Round the Sun, juntos, apresentaram três temas em que "Black Tongue" entrou de alguma forma menos perceptível por se ter seguido à frenética "Bladecatcher", e "Ember City" provou mais uma vez saberem fazer, perfeitamente, música para ser entoada por toda a plateia.

Um dos grandes momentos da noite fora "Megalodon" a apresentar uma imponente candidatura ao prêmio mosh da noite. 


"Oblivion" demonstrou-se uma favorita e "Show Yourself" provou que "haters" é coisa de redes sociais.
Tanto "Precious Stones" como "Steambreather" se demonstraram das mais aplaudidas de Emperor of Sands.

A cada transição entre temas surgiram "obrigados", particularmente da parte de Brent que lá pelo meio ainda concretiza o feito circense de solar e de cuspir para o ar sem sujar nada (agora pensem).

Já para a recta final apostaram nas sonoridades mais old school com Remission a ser relembrado com uma "Mother Puncher" pouco entusiasmante mas com "March of Fire Ants" a tapar o buraco lindamente numa despedida grandiosa antecipada por Troy, visivelmente agradecido pela forma como fora recebido.

O merecido encore saciou a fome de todo aquele que não iria de estômago cheio sem o famoso riff de "Blood and Thunder". O último momento de catarse generalizou-se na plateia.

Uma despedida que soube a cereja no topo do bolo.



A resposta à questão inicial é clara e evidente. Os Mastodon não são só uma banda de álbuns. São uma banda no seu pico de forma não só em estúdio, como a tocar ao vivo.
Uma união inabalável a dar frutos em todas as frentes.

Depois deste concerto dificilmente voltarão a ser banda de suporte em Portugal: esta foi, sem dúvida, uma das suas melhores prestações no nosso país e que envergonha algumas menos imaculadas em formatos festivaleiros.

Texto: Tiago Queirós
Fotos: Joana Marçal Carriço (todas as fotos brevemente no nosso facebook)
Agradecimentos: Prime Artists

Bónus | novo tour vídeo da banda:

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