03/04/2017

[Report] Moita Metal Fest 2017 (sexta-feira)

Pelo quinto ano consecutivo, a SFTD Radio marcou presença no Moita Metal Fest que nesta 13ª edição mudou de recinto, abandonando a Sociedade Filarmónica, que durante tantos anos recebeu este festival, encaminhando a romaria metaleira um pouco mais adiante para um espaço pensado especificamente para receber este que já pode ser considerado como um dos principais eventos da música pesada no nosso país.

REPORT 1º DIA | 2º DIA


Mantendo a linha ecléctica, que tanto conjuga os diversos sub-géneros do metal como recebe alguns nomes mais roqueiros, o MMF continua a ser uma excelente oportunidade para o público assistir a actuações de diversas bandas nacionais de qualidade.

Pelo antigo palco passaram nomes tão sonantes como Onslaught, Entombed AD, Tankard e Angelus Apatrida. Na estreia do novo não faltaram os headliners de relevo internacional, subindo mesmo a fasquia: Napalm Death e Sodom.

O upgrade realizado este ano no Moita Metal Fest fará com que 2017 seja lembrado como o ano da profissionalização de um festival conhecido pela sua atitude DIY.


Desde a clara melhoria no recinto, que fica a ganhar bastante com a nova tenda, aos bares e zona de alimentação exterior...
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O potencial de crescimento é agora exponencial e faz com que o fiel público do certame possa ambicionar voos mais altos.

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Legacy of Cynthia

Na primeira parte deste festival, que se praticou tanto na noite de sexta-feira como no sábado a todo gás, o certame deu-se início ao som dos Legacy of Cynthia que um pouco depois das 20h:30 subiram ao palco com o seu já aclamado Danse Macabre .

A banda, que também irá marcar presença no nosso LOUDER THAN ALL Ep.1 (evento que a SFTD Radio está a organizar com data marcada já para o próximo dia 29 de Abril no RCA Club em Lisboa), demonstrou bem o porque de estar presente em todas as publicações dedicadas à música pesada no nosso país.

A performance dramatizada pelo vocalista Peter Miller ao vivo adiciona cor e brilho a um conjunto de composições fortes e dinâmicas, sublinhando a ideia de que a entrada deste álbum nas listas de melhores de 2016 é merecida. Foram aprovados no teste do segundo LP com distinção no capítulo da originalidade.

O seu metal é alternativo, prima por uma noção rítmica invejável e uma boa capacidade de criar melodias tanto orelhudas como contagiantes.

De "Darwinian" a "Cabaret", o concerto fora demasiado curto para estarmos frisar as falhas sob penitência de não perdurar a ideia de que os únicos lesados foram os que ainda não tinham dado entrada no recinto.
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Não falharam em demonstrar seu tecnicismo sobre o palco, com uma perfeita noção de que uma banda não passa somente por um conjunto de executantes. O público reagiu positivamente ao sentido de entretenimento que a banda de Sintra demonstrou saber criar.

A estreia destes rapazes no MMF provou a todos que, mais cedo ou mais tarde, ali repetiremos a dose num horário mais tardio.


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Prayers of Sanity

Já com o recinto mais composto e cheio de fiéis clientes, os algarvios Prayers of Sanity atacaram a multidão com o seu thrash proporcionando as primeiras movimentações no mosh pit.
O regresso destes rapazes ao festival foi aplaudido e as gentes da Moita foram-se desinibindo com a fartura de riffs metralhados em palco.

Alguém se lembra destes rapazes no Ermal a tocarem sob um sol abrasador? A atitude que demonstraram tornou-os um dos nomes que muitos fixaram daquela que fora a derradeira edição em 2009.

Pois bem, o passar dos anos trouxe-lhes uma maior maturidade na arte de compor.


Se na altura as referências orbitavam tanto em torno do thrash americano como tinham laivos de crossover, agora podemos dizer que, mesmo com menos um elemento em palco, denota-se uma evidente evolução técnica e uma maior amplitude dentro deste género que, apesar do pico ter ficado na década de 80, atravessa um momento entusiasmante com referências do passado a ofertarem-nos álbuns coesos e novos nomes a serem adicionados a playlists que se demonstravam algo conservadoras.

Mais uma vez se comprovou que o thrash metal continua a ser das vertentes de maior agrado do público português. Especialmente em eventos, que como este, primem por uma maior diversidade. É o elo que melhor liga as tribos e os Prayers of Sanity demonstraram estar muito bem a par disso.

A aposta em temas rápidos ao estilo de uns Municipal Waste deu frutos e "Face of the Unknown", terceiro álbum da banda a ser lançado dia 28 de Abril pela Rastilho Records, entrou directamente para a "wishlist" com "Someday" a servir de aperitivo até lá.

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Theriomorphic

Um dos nomes mais recorrentes dos cartazes do MMF é também um clássico do death metal nacional. Os Theriomorphic voltaram a demonstrar ao vivo o quão poderoso é o seu som.
Possivelmente influenciados por uns Vader ou uns Morbid Angel, a banda de (também DJ de serviço para os after-party's) praticou sempre som pujante e demolidor, cru como os fãs dos primórdios do género gostam.

A mistura de som, pelo menos centrado junto ao palco, esteve imaculado contribuindo bastante para exacerbar esta banda bastante respeitada no underground português.


Comemorando já duas décadas de historia, os Theriomorphic vão finalmente adicionar um EP à sua curta discografia, sendo a data apontada para este ano.

A sua passagem nesta edição foi tal como se esperava e ,sem surpresa, foram eficazes a conquistar um lugar no pódio neste primeiro dia de festival sendo "The Beast Brigade" um dos melhores momentos sonoros.

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Crise Total

Quem não se lembra do concerto alucinante dos The Parkinsons no ano passado?
O punk rock parece ter vindo para ficar e depois de Trinta & Um e Simbiose, os históricos Crise Total romperam pela primeira vez neste que é um Metal Fest.

Os tempos em que o metal e o punk seguiam rumos separados neste nosso pequeno underground parecem ter ficado no milénio passado e este tipo de eventos muito tem contribuído para tal.
É incrível como o tempo passa... em 2013 já celebrávamos os seus 30 anos de carreira no mítico Ritz Club e, no entanto, ainda cá estão a dar cartas em 2017!
Punk's not dead!

A musica que sempre lhes fora (descaradamente) um veículo da sua mensagem anarquista e anti-sistema foi exemplificada em "Foi Portugal" e especialmente em "Queremos Anarquia" . O seu forte carácter de rebelião e de inconformidade não fora indiferente aos presentes.
O que se calhar já não se lembram é que já tínhamos escutado a Crise Total no recinto anterior sob a forma de Cover interpretado pelos Albert Fish.

Relembram-se figuras do punk nacional, do Rui Rocker (membro fundador) a João Ribas.


Manolo, o líder deste quarteto, não escondeu a alegria de ser tão bem recebido logo na sua estreia. O público da Moita é conhecido pela sua veia hospitaleira e lá isso é verdade!

Infelizmente, o som poderoso dos concertos anteriores não se verificou neste. Talvez por isso, esta fora a prestação mais morna deste primeiro dia.


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Gwydion

Diversas bandas têm vindo a conquistar o seu espaço no festival Moitense, pelas suas performances e pelo carinho do público. Os Gwydion são uma dessas.

A sua evolução nos slots do cartaz prova isso mesmo. Na edição de 2014 regressaram à Sociedade Estrela Moitense com o peso e honra de fechar a noite de sábado e nesta foram a última banda nacional a abrir para um headliner musicalmente díspar e distante do seu folk metal. Uma jogada à partida arriscada.
Agora somem risco com a estreia de dois elementos na formação da banda.
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Pedro Dias veio substituir Rúben Almeida como vocalista, um "posto" que lhe pertencia desde 1995. Andrecadente, que já tinha tocado em 2014, volta a ocupar o lugar de Luís Abreu nas baquetas.
Os deuses não abençoaram de forma gratuita a estreia do novo frontman.
A falta de som na voz, que se ficaria nesse momento pela munição de palco, não permitiu uma partida como se desejaria mas a forma como deram a volta por cima acabaria por ditar um dos melhores concertos desta edição.

Com uma das melhores plateias que testemunhámos nestes dois dias, os Gwydion tiveram um belo banquete festivo com muito mosh à mistura! 


Regado (ou não) a hidromel, a multidão aderiu em grande escala a um pit de dimensões assinaláveis de onde se espelhava a diversão presente na cara de quem o integrou.
Vagos poderá ser, à data, o melhor momento da carreira da banda no que toca a concertos ao vivo... isso pode muito bem ter mudado. Mesmo com todos os percalços (que incluem uma despedida forçada), na óptica do público este fora o melhor concerto que há memória destes que são o maior nome do folk metal nacional.

Musicalmente irrepreensíveis, a performance destes rapazes merecia um maior espaço temporal: Ensiferum no Paradise Garage foi bom e não fora metade.
Bem-vindos de volta guerreiros! Há muito que vos aguardávamos... Para a próxima é melhor pensarem num registo 'Live in Moita Metal Fest'.

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Napalm Death
O prato principal desta primeira noite era já bem conhecido dos portugueses, que nos últimos 24 anos, desde a sua estreia em 1993, devem ter uma média próxima de um concerto de Napalm Death a cada dois anos, algures no nosso país.
Esta relação que o nosso público tem com estes históricos do metal extremo, pioneiros na construção do grindcore, é única e incomparável a qualquer banda que circule em redor das mesmas características musicais.

As memórias do Route to Resurrection Tour (República da Música) e Deathcrusher Tour (Cine-Teatro Corroios) estão ainda frescas e muito contribuíram na promoção desta primeira noite de MMF'17.
Nós, que também por lá passámos, sabíamos bem que Napalm Death é pura destruição e propagação do caos por todo o recinto onde passam.

No Moita Metal Fest não fora diferente. "Apex Predator-Easy Meat" fora o catalisador do momento mais explosivo de toda esta edição. O mosh pit em toda a sua dimensão demonstrava a loucura que aqueles blast beast criam.

O álbum de 2015 fora talvez o que mais rodou, com destaque para "Smash a Single Digit" e "How the Years Condemn" que comprovaram novamente que este é mesmo dos registos mais fortes da banda de Birmingham em vários anos.
Em palco a evidente substituição de baixista acabou por nos "roubar" uma das figuras mais históricas a pousar o pé naquela terra de toiros e largadas.
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Shane Embury está neste momento com os amigos, também influentes, Brujeria que passaram pelo nosso país no ano passado. Em seu lugar, Jesper Liveröd (dos Nasum, outro histórico do grindcore) demonstrou-se competente na forma como propaga aqueles graves avassaladores que criaram as bases e pilares de um mundo nem sempre fácil de mergulhar. Mesmo para os ouvidos menos sensíveis ao metal mais pesado.

Não faltaram os clássicos de Scum, From Enslavement to Obliteration e Harmony Corruption mas temas como "Twist the Knife (Slowly)", "When All is Said and Done", "The Code is Red...Long Live the Code" não pecaram no trademark sonoro.

Houve ainda tempo para uma recta dedicada a covers com "Face Down in the Dirt" dos Offenders, "Hate, Fear and Power" dos Hirax e a sempre presente "Nazi Punks Fuck Off" dos Dead Kennedys.
Barney, ou Mark Greenway se preferirem, que já caminha para meio século, continua igual a si próprio e não falhou em demonstrar os seus "moves" descoordenados e anti-rítmicos que colam bem com o tom imprevisível das músicas da sua banda. Não se demonstrou particularmente simpático perante as sucessivas invasões de palco mas não falhou em se dirigir ao público com a sua visão política sobre a sociedade em que vivemos.
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Para quem os tenha visto nas últimas passagens, esta poderá ter sido algo redundante. No entanto, mais do que aos temas em si, é difícil ficar indiferente aos efeitos que estes causam na plateia. As paisagens assustadoramente violentas que tantas questões levantam aos ateus da metalada são imagens pitorescas aos mais fiéis. Seria bom sinal assistir a tal de forma mais recorrente. O Moita Metal é dos poucos casos que podemos afirmar com certeza que este tipo de entrega não é pontual. É tradição.

Era tempo de descansar os pescoços, dormir e esperar que a ressaca fosse leve. No dia seguinte a maratona começava às 15h...

Fica atento, em breve teremos report do segundo dia e (muito) mais fotos que iremos actualizando neste álbum:



Texto: Tiago Queirós
Fotos: Nuno Santos

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