07/12/2018

[Report] The Dead Daisies em Lisboa: It's Only Rock n' Roll But We Like It!


Restos de uma saudosa geração feita de Deuses e Heróis do Olimpo do Rock'n'Roll, os The Dead Daisies conviveram de perto com os seus nomes maiores e hoje irradiam essa luz que se vê apenas na elite da mais talentosa velha guarda. 
Na passada terça-feira, dia 4 de Dezembro, foram eles que brilharam no palco do Lisboa ao Vivo, surpreendendo cépticos, com uma incansável prestação de duas horas que passaram a voar. Sem prejuízo mas sim com honestidade de quem valoriza a sua evidente experiência e qualidade técnica, o que desperta a curiosidade por este projecto fundado por David Lowy são mesmo as referências curriculares, mas o que se aplaudiu foi a fantástica performance e os temas originais, que sem primarem pela originalidade, não pecam pela redundância.
Os simpáticos The Dead Daisies nunca serão uns Mötley Crüe ou uns Whitesnake nem aparentam querer tal coisa. Pelo contrário. Com mais de meio século nas pernas, estes rapazes já não se deixam iludir com as luzes da ribalta (por onde já passaram) e em Lisboa, como por outras passagens, deram uma lição de humildade e gratidão numa bonita antítese do irreverente show business dos anos 80/90 feito de sexo, drogas e rock'n'roll, muito pouco próximo da realidade da grande fatia de fãs. 

Esse artificialismo foi substituído pelo carácter mais intimista e de maior proximidade com o público, a começar pelo seu formato Daisyland acústico que os primeiros 50 fãs assistiram por volta das 19h. 

 
Esta experiência funcionou como um storytelling bem próximo dos seus fãs, numa evidente tomada de posição contra o que muitos consideram de oportunismo por parte de bandas muito mediáticas que "forçam" estes momentos em troca de valores por vezes astronómicos.
Deste pré-concerto semi-acústico destacaram-se "Lock n' Load", cuja versão original teve um toque de Slash (e chegou a entrar nos tops do Reino Unido), e as covers de Rod Stewart com "Maggie May" (que viria a se repetir mais tarde) e uma "Ramble On" da banda mais influente da história do hard rock. Led Zeppelin
Doug Aldrich (Whitesnake; Dio) reclamou para si o centro das atenções com as constantes demonstrações como guitar hero da banda. Seguiram-se tertúlias, autógrafos e selfies entre fãs e banda num momento certamente especial para todos os presentes.
Com a abertura de portas, a sala foi-se compondo e se num primeiro momento tememos as consequências de um espectáculo a meio da semana, aquando dos headliners esta aparentava já estar bem composta (ndr: como podem verificar nas últimas fotografias).

Os históricos Iberia tiveram a cargo da primeira parte e foram aquecendo as hostes quer com temas mais antigos como do mais recente Much Higher Than Hope.

Bem encaixados com as paisagens sonoras do headliner, os portugueses brindaram-nos com aquele rock guitar driven que marcou a geração de grande parte do público.

Esta formação com Hugo Soares (vocalista), Jorge Sousa (guitarrista), Hugo “Pepe” Lopes (guitarrista), João Sérgio (baixista) e David Sequeira (baterista) demonstrou em palco a sua experiência e vontade de continuar a demonstrar o seu heavy metal mais clássico. 
Como sempre o virtuosismo de Jorge "Slash" Sousa centrou muita da nossa atenção.A terminar não faltou a obrigatória "Hollywood" que sempre consegue arrancar alguns coros, mesmo nas plateias mais envergonhadas.
 
A rotatividade de elementos da banda, que já teve a nata de "hired guns", com exemplos de Guns'n Roses a Rolling Stones (para não alongar o texto com ainda mais referências curriculares), parece ter finalmente assentado. Pelo menos é essa a ideia que a banda faz transparecer e o claro entusiasmo do seu mais recente elemento, o baterista Deen Castronovo (Journey; Ozzy), sublinha isso mesmo.
Depois da sua curta estreia no nosso país, aquando do Legends of Rock, a abrir para Scorpions neste Verão, os "Daisies" puderam demonstrar de forma mais aprofundada o seu catálogo que conta já com quatro álbuns de originais incidindo naturalmente mais em Burn It Down, mas sem negligenciar temas anteriores (sendo que 4/5 da banda já tinham créditos assinados no álbum anterior).

Ao som de "Sweet Emotion" aproveitou-se para por a conversa em dia mas aquando da subida da banda a palco esses convívios adiaram-se até ao termino de uma palestra de como encarar um concerto de hard rock (de média dimensão) no novo Milénio.

Não deixa de ser curiosa a selecção musical do PA visto que John Corabi apresentou-se com um look muito Steven Tyler. Mas esse tipo de conversa deve ficar para a "Passadeira Vermelha". 

Com a artilharia pesada ligada aos amplificadores, "Midnight Moses" arrancou os primeiros Yeahhs da noite e serviu de tiro de partida. 

O hard rock que praticaram não cheirou a naftalina e as memórias auditivas mais rapidamente eram activadas com pequenos detalhes que poderíamos ter ouvido nuns Velvet Revolver ou nuns Alter Bridge do que em bandas como Thin Lizzy ou outras mais por onde os músicos foram passando. 
É inevitável ouvir um pouco do blues à la Jimmy Page em "Evil" ou a métrica estilo "We Will Rock You" em "Make Some Noise", mas "Rise Up" soa muito mais metálico e moderno, ao género de Tremonti (que vimos no mesmo palco no mês anterior). 
"Dead and Gone" e especialmente "Resurrected" demonstraram que essa abordagem pelo novo álbum assenta-lhes lindamente. Esta última com um carácter mais pessoal para o vocalista ex-Mötley Crüe. Mesmo o tema homónimo desde ultimo trabalho discográfico, com blues meio redneck demonstra uma assinalável "single-ridade".

Mas por muito que os singles tenham obtido bons resultados a nada se compararam aos níveis de satisfação que obtiveram com as suas roupagens de clássicos como "Join Together" (The Who), "Bitch" (Rolling Stones) e o forte candidato a momento da noite: "Let it Be", hino incontornável do quarteto fantástico de Liverpool (foto seguinte).


A noite teve direito a duas despedidas com dois temas muito influentes na concepção da música pesada: novamente a cartada Beatles com "Helter Skelter" e "Highway Star" do icónico Machine Head de Deep Purple, que se despediram dos portugueses em 2017 no Altice Arena. Mais uma vez ver Doug Aldrich na pele de Ritchie Blackmore e John Corabi na de Ian Gillan encheu-nos as medidas. Astros musicalmente multifacetados e pessoas de uma simpatia contagiante.

O Rock'n'Roll corre-lhes nas veias e quer em estádios como em recintos como o que os recebeu em Lisboa o profissionalismo é inegável. 

Os The Dead Daisies nesta passagem não ganharam pelos números mas aprofundaram a sua relação com os seus fãs como desejaríamos que muitos mais tivessem a humildade de o fazer. E nem todos são estranhos à língua de Camões.

Texto: Tiago Queirós
Fotos: Nuno Santos (todas as fotos AQUI)
Agradecimentos: Lisboa ao Vivo / Sónia Ramos PR

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