18/10/2018

[Report] A noite em que Lisboa foi invadida por australianos: Caligula’s Horse, Circles e I Built The Sky

A invasão australiana | 15 de Outubro 2018 no RCA Club, Lisboa
“In Contact” Europen Tour com Circles e I Built The Sky
Quando um artista tem um dom e o manifesta com arte e mestria a crítica repara e a seu tempo os seus admiradores exigem a sua presença. Nessa altura o seu berço torna-se demasiado pequeno e surgem (ou têm que se criar!) oportunidades que não se podem deixar escapar.

Para a promissora carreira dos Caligula's Horse é fulcral a participação em alguns dos mais conceituados festivais de Rock Progressivo Europeus, mas também uma espectacular oportunidade de encabeçar uma tour europeia para a promoção do seu mais recente trabalho conceptual, com alguns dos seus compatriotas e amigos como são o caso dos Circle e I Built the Sky.

Felizmente existem patentes atentas que decidem apostar no "Cavalo" certo permitindo assim que uma já estabelecida comunidade de amantes do progressivo em Portugal possa disfrutar de tesouros como estes.

Pouco passava das 20h30 quando subiram ao palco os I Built The Sky liderado pelo virtuoso guitarrista Rohan Stevenson  que se fez acompanhar por uma não menos brilhante secção rítmica que através do seu baixista Sam puxava pelo público com uma segurança e cumplicidade contagiantes.

Nada intimidados por tocarem em palcos desconhecidos, ao fim da segunda música já tinham conquistado o público, com os seus arranjos complexos de guitarra, brutais melodias e contagiantes ritmos groovy/djenty...

A setlist dos I Built The Sky recaiu em grande parte sobre o seu trabalho de 2016, "The Sky Is The Limit", tendo ainda havido tempo para "Intortus" do seu primeiro EP, "Celestial" o seu mais recente single e uma grande malha de seu nome "Merry Xmas" onde até o baterista Rob conseguiu incluir uns dignos blast beats.
E quando estávamos completamente hipnotizados pela qualidade deste trio, eis que Rohan num momento de puro divertimento, escorrega na setlist dando um aparatoso malho mas que não o impediu de prosseguir a debitar notas e até o empolgou para mais tarde saltar para o meio do público (sempre a tocar) para pedir que este se chegasse mais para a frente do palco...

Um pormenor curioso é o facto de este guitarrista não tocar com as habituais guitarras de 7 ou mais cordas como a maioria dos restantes colegas de profissão que tocam um som similar...Para quem não conhece este projecto instrumental, podemos sem dúvida recomendar para uma mais aprofundada audição...

Seguiram-se os compatriotas Circle e confesso que foram necessários uns minutos na adaptação ao transitar de um trio instrumental super técnico para um quarteto que assenta o seu som num neo prog metal core ("raio partam as tags!!!") mais atmosférico, dissonante e gritante muitas vezes acompanhado pela audiência que por esta altura já se estava totalmente composta.

O espectáculo dos Circle recaiu em grande parte no seu mais recente trabalho "The Last One", lançado este ano, do qual podemos salientar "Dream Sequence" e "Resolution" que funcionam muito bem ao vivo e as malhas do álbum de 2013 "Infinitas" caracterizadas pela brutal voz do baixista Drew.
Foi bonito de ver o baixista de Caligula's Horse a ajudar o seu compatriota em cima de palco quando este manifestou um problema técnico com um dos seus baixos, sendo este apenas um dos muitos momentos em que se sentiu a grande entreajuda entre todos os elementos das bandas e staff.

E para o final a cereja no topo do bolo.

Tal era desejada esta actuação que o público fez questão de se amontoar mais perto do palco para sentir de perto uma das mais sensacionais bandas do novo rock progressivo.
A empatia foi extremamente fácil, porque mesmo conscientes dos seus dotes técnicos, os Caligula's Horse apresentam-se despretensiosos e desprovidos de vaidades, sempre divertidos e simpáticos, mostrando o quão importante é gostar do que se faz profissionalmente.

Formados nos inícios de 2011 e liderados pelo vocalista Jim Grey e pelo guitarrista Sam Valley a banda brindou-nos maioritariamente com malhas do seu ultimo conceptual "In Contact" que tem tido uma crítica muito positiva catapultando estes para grandes festivais do género um pouco por todo o mundo.

Para qualquer fã dos Caligula's Horse qualquer música foi um ponto alto, mas foi com grande surpresa e calculamos alegria que Jim sentiu este calor vindo do público quando fazia a ponte para a terceira malha da noite "Dark Hair Down".

Antes disto, com "Dream the Dead" e "Will's Song" já todos estavam totalmente rendidos à brutal secção rítmica de Dave e Josh, às tremendamente sincronizadas 7 strings de Sam e Adrian e à estupenda voz de Jim, capaz de teatralizar desde qualquer peça de Shakespeare a comandar exércitos romanos para a batalha num ápice...

E a meio da actuação (sim porque as músicas não são propriamente pequenas!!!), houve tempo para cimentar ainda mais a relação com o publico... E que bem que eles o fazem...O publico escolheu Rust e de seguida teve que ensaiar "Songs for No One" com ajuda do guitarrista e baterista...

Escapámos à "vergonha" com mestria e a banda brindou-nos com mais um grande momento com uma introdução fenomenal em "Fill My Heart” onde Dave, o baixista e elemento mais low-profile da banda, nos surpreendeu com um excelente suporte vocal.

E seguiu-se "Graves" que é sem dúvida um daqueles temas portador de todos os elementos essenciais de uma música progressiva, capaz que encher de orgulho qualquer egrégia banda da estirpe dos Caligula's...

Depois disto chegou a confidência...Jim de coração aberto deu a entender a incógnita que é fazer uma tour tão distantes da sua zona de conforto, especialmente como cabeças de cartaz em locais nunca antes visitados...foi uma ansiedade até ao último momento saber como seria a receptividade na bonita Lisboa...

E foi com uma bela mensagem de amor, daquelas de dignas de Oscar, que Jim fez a passagem para o medley "Bloom/Marigold" que são sem margem para dúvidas as malhas responsáveis pelo enorme salto dos Caligula's Horse para o patamar em que hoje se encontram.

E finalmente o encore...com Jim a entrar sozinho antecipando o aviso de "Inertia and the Weapon of the Wall", que numa primeira audição parece completamente fora de contexto no álbum, mas que depois de uma quantas revisões e especialmente ao vivo faz todo o sentido antes de spit on "The Cannon's Mouth" que fechou com chave de ouro uma estupenda noite de novo rock progressivo (isto para ser o mais abrangente possível!!!).

De salientar que o som esteve sempre perfeito, todos os instrumentos e vozes de todas as bandas eram facilmente distinguidos ajudando muito para isto a robusta arena que é o RCA Club, bem como os técnicos da casa e das bandas.

A incógnita acabou por se desvanecer numa belíssima noite em que os amantes do prog mais atentos não faltaram à chamada desta #theaussieinvasion.


Texto: João Pereira
Fotos: João Pereira (casual mobile pics), Sónia Ferreira (World of Metal) e Diana Rosa (setlists no fim do artigo), a quem agradecemos a contribuição.

 
Agradecimentos: Clap Box e ao grande Daniel Makosh

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