10/12/2017

[Report] UNDER THE DOOM V: dia 2

O festival regressou ao RCA Club para mais uma longa noite composta por seis atuações. Desta vez, a sala encheu e a subida de temperatura lá nos permitiu tirar o casaco e esquecer um pouco o frio intenso que se fazia sentir no exterior.

Report dia 0              Report dia 1              Report dia 2

Dia 2 (2/Dez)


Os holandeses GOLD fizeram mais do que ajudar a aquecer o ambiente.
Ouvimos-los de sobrolho franzido, a tentar perceber em quantas camadas se compõe a sua atuação, a apreciar a expressão facial e corporal da vocalista Milena Eva e a deixar o frenesim das três guitarras dominar-nos o pensamento.
Primeiro estranha-se e depois entranha-se. Não se pode dizer que pertençam a um género que nos ajude a descrevê-los, mas sim a uma motivação que os impele a questionar e a reagir artisticamente face a uma realidade que os inquieta e que, acima de tudo, os retém, inconformados.
Foi um concerto inesperado para nós, com um público imóvel e igualmente surpreendido. E enquanto nos perdíamos no ritmo frenético das guitarras, paralelo aos movimentos suaves e expressão impávida da vocalista, deparámo-nos com o final do concerto, que chegou demasiado cedo.
Milena Eva voltou a vestir o casaco, arrumou o microfone e nós, estupefactos, e ainda com o tema Servant no ouvido, ficámos de apreciar melhor, em casa, o último álbum, Optimist.

Em seguida, os americanos Novembers Doom, já com mais de duas décadas de existência, fizeram o concerto que se esperava, satisfazendo o público sedento do peso e melancolia doom.
Já sentíamos falta de uns bons guturais e estes não desiludiram, a acompanhar alguns dos temas mais aguardados, tais como Autumn Reflection;  ouvimos ainda temas do novo álbum Hamartia, como Borderline, Plague Bird ou Devil’s Light; e ainda Amour of the Harp, do primeiro trabalho de longa duração, raramente tocado ao vivo, segundo o vocalista.  
Vimos o público vibrar com esta atuação, que fez as delícias dos bons apreciadores  de doom, para além de estar envolta em boa disposição, com o vocalista a manter boa interação com os presentes.

Não é fácil escrever sobre os portugueses Process of Guilt porque, na verdade, só se escreve sobre algo que se consegue explicar e, portanto, o melhor é escrever sobre o que sentimos.
Podemos dizer, sim, que nos perdemos por completo na distorção, na crueza dos temas, na agressividade da voz. Em qualquer local onde estivéssemos, onde quer que nos encostássemos, a trepidação apanhava-nos. Se, por um lado, a violência da atuação não nos deixou sossegar, por outro lado, também nos deixou sem reação, completamente dominados.
Olhámos à volta e não nos sentimos sós, rodeados de público com expressão semelhante à nossa. Neste caso, não se aplica o clássico “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, pois se não estivermos recetivos à violência da sonoridade de Process of Guilt, o peso da distorção pode tornar-se insuportável.

Quando concluímos que já tínhamos muitos elementos surpreendentes para descrever, deparámo-nos com os Acherontas e com o ritual que iniciaram em palco.
Instalou-se um ambiente diferente, de ritmo mais acelerado, de onde sobressaiu, imponente, o tom ameaçador da voz de Acherontas V. Priest, a comandar a cerimónia. Os destaques vão para os acessórios no palco, para a luz vermelha que iluminou toda a atuação e para as mudanças no público, que agora se movimentava e acompanhava o som estridente da bateria, que não abafava, ainda assim, o trabalho das guitarras.

Já faziam falta os alemães AHAB, para regressarmos à pulsação lenta do doom, neste caso, do funeral doom, e a permitir que nos desligássemos do tempo e do espaço em que estávamos, juntamente com uma sala cheia de gente a fazer o mesmo.

A banda consegue manter-nos em suspenso, iniciando alguns temas apenas com a bateria, fazendo com que aguardemos, a qualquer momento, o irromper de todo o peso dos restantes elementos. Qualquer pausa no meio de um tema consegue ser quase angustiante. Pela terceira música a ser apresentada, já a banda era aplaudida com muito entusiasmo e, no final, podemos mesmo dizer que foi uma das  bandas a receber mais gritos e aplausos esta noite.

E, finalmente, os noruegueses In the Woods vieram encerrar o festival e notámos, pela reação do público, que eram muito aguardados.
Tocaram temas antigos, tais como The heart of the ages e The Divinity of Wisdom (The Heart of the Ages, 1995), e outros mais recentes, como Blue Oceans Rise e The Cult  of Shining Stars, do álbum Pure, lançado em 2016. A noite já ia avançada, mas a sala manteve-se bem composta, embalada na atmosfera fria criada pela banda, na qual ecoavam os samples arrepiantes, a compor o quadro blackned/ prog/doom, a que já habituou os seus fãs, há mais de duas décadas.

Calmamente, o público começou a dispersar e a abandonar a sala, em direção ao frio que se fazia sentir no exterior. Terminou mais um Under the Doom e está de parabéns a Notredame Productions por continuar a responder, com este nível, a um público específico e exigente, que continua a marcar presença e a motivar a continuidade do festival.

Texto: Sónia Sanches
Agradecimento especial pela cedência das fotos ao Hugo Rebelo. Podem encontrar todas na sua página em Hugo Rebelo Fine Art Photography

Report dia 0              Report dia 1              Report dia 2

Veja também: