30/10/2017

[Report] Apresentação em Lisboa de "Ecos da Selva Urbana", álbum de estreia dos RASGO

Na senda dos álbuns nacionais que vêem a luz neste final de ano, coube desta vez ao RCA Club receber o lançamento de “Ecos da Selva Urbana” dos nacionais RASGO, um álbum de thrash totalmente em português.

Este álbum de estreia provocou um hype enorme na cena nacional, sendo executado por músicos muito experimentados na cena nacional com passagens por bandas como WitchBreed, Shadowsphere, Formaldehyde, Ignite the Black Sun, Trinta e Um, Pé de Cabra, Tara Perdida ou Sacred Sin, expectativa que cresceu ainda mais pelas boas prestações ao vivo que a banda fez esta ano, nomeadamente a abrir para Slayer no Coliseu e no VOA Fest, onde souberam cativar o vasto publico presente nesses eventos, conquistando elogios e somando criticas positivas.

O quinteto alentejano Mindtaker foram os convidados de honra para apadrinhar este lançamento, cabendo-lhes abrir a noite com o seu Old School Thrash metal, tendo subido a palco pelas 22h40 perante um Rca Club ainda algo despido, com muita gente do lado de fora, presa na longa fila para entrar.

Sem contemplações, enfrentaram o gelo inicial do público com uma violenta descarga de velocidade e agressividade, assente num insubordinado metralhar da bateria e na sucessão de riffs complexos. Com facilidade provocaram aplausos e headbangings, não obtendo o mesmo sucesso no que ao mosh diz respeito, ficando os seus apelos sem resposta, perante uma plateia que parecia estar a guardar-se para os senhores que se seguiam. Ainda sem o primeiro álbum lançado mas com a expectativa de isso acontecer já em 2018, foram desfilando temas que farão parte desse mesmo trabalho, destacando-se dois temas cantados na língua de Camões, ‘Destruição Total´ e ‘O Mais Ruim Que Se Negue’, funcionando quase como um prenúncio para o que se seguira, e ‘Into The Pit’ que ainda conseguiu esboçar timidamente os primeiros mosh da noite.

Irrepreensíveis no seu desempenho em cima de palco, foram enchendo a sala, fazendo subir a temperatura, aproveitando mais esta oportunidade para se mostrarem ao público da capital, e somar mais alguns fãs aos fãs que já tinham feito em Corroios quando abriam para Anthrax, tendo merecido os aplausos que receberam no final.



Casa cheia esperava com ansiedade pelos RASGO, de tal maneira que, quando já perto da meia-noite se fez ouvir a intro, de imediato e instintivamente eclodiram ruidosos aplausos e gritos. 


Como se fossem todos velhos conhecidos, e aquela fosse já uma relação duradoura, é com total naturalidade que a comunicação banda e público flui, a plateia reage a todos os apelos oriundos de cima de palco, galvanizando-os também pela resposta que obtém, numa perfeita relação simbiótica que produz uma comunhão de headbangings e ergue logo na primeira música, ‘Propaganda Suicida’, um mosh pit que não mais se encerraria e só aumentaria de intensidade com o avançar dos temas.


Quando ‘Ergue a Foice’ se faz ouvir na voz de Paulo Gonçalves já ninguém recordara que este género é tradicionalmente cantado em inglês, o muito bom desempenho vocal funde a língua de Camões com os riffs de uma maneira tão competente que o sotaque lusitano parece o meio natural destas sonoridades. Esse é apenas um dos aspetos onde se nota a experiência da banda, desde a composição dos temas, ao profissionalismo, competência técnica, atitude e à-vontade em palco. Uma estrutura sólida que tema após tema se supera.

Continuando a apresentação de todos os temas do álbum, muitos foram os momentos de destaque numa festa que ameaçava derrubar as paredes do RCA Club. A ‘Líder’ seguiu-se ‘Faca Romba’ que arrancou embalada por aplausos.

O tema título mereceu um dos maiores mosh pit da noite e encontrou uma plateia afinada a cantar o refrão ao mesmo tempo que surgiam os primeiros Crowd Surfing


E já que as gargantas se encontravam afinadas, a uma só voz gritou-se “puxa” em ‘Homens ao Mar’ naquele que já é um dos temas mais requisitado pelos fãs.

Já muito se suara e a já noite de outono atingia dentro da sala temperaturas de um verão quente, mas ninguém dava mostras de cansaço, ‘ A Besta’ teve direto a Stage diving, um bruto mosh pit e até Wall of death, com o bailarico atingir novos níveis de intensidade, quando já nos aproximávamos do final da atuação.

A reta final teve uma homenagem a Mão Morta com uma versão do tema ‘Cão da Morte’ do álbum Primavera de destroços, antes de ‘Existe’ despoletar uma maré de stage diving que continuou no último tema ’Vulgo Vulto’ com Paulo Gonçalves também a participar. Muitos sorrisos de parte a parte e aplausos no final de uma saudosa atuação.


Poucas bandas se podem gabar de terem tido uma recepção tão calorosa no RCA Club como o RASGO tiveram, sobretudo no lançamento do álbum de estreia. Ecos da Selva Urbana não é um trabalho original, não é a invenção do Thrash Metal em português, mas não deixa de ter aspetos singulares, é um salutar trabalho com solidas raízes que de uma maneira direta nos apresenta a fórmula do bom Thrash-Metal/Crossover, adicionando essa saborosa cereja no topo do bolo que é a língua portuguesa.

O ano de 2017 trouxe-nos grandes álbuns de Thrash de bandas como Terror Empire, Prayers of Sanity ou Primal Attack aos quais se junta agora este Ecos da Selva Urbana, numa prova de vitalidade da cena nacional que nos faz augurar um futuro auspicioso, que ansiosamente esperamos poder acompanhar.




Texto: Henrique Duarte
Fotos: Joana Marçal Carriço (todas as fotos brevemente na nossa página)
Agradecimentos: Rastilho Records

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