22/06/2017

[Report] Hatebreed, For The Glory, Black Bomb.A e Terror Empire no Cine Teatro de Corroios

No passado domingo, 11 de Junho, os Hatebreed voltaram a fazer-se ouvir e o público português não lhes foi indiferente. Pelo contrário: destruíram tudo.

Na margem norte do Tejo, arraial algum demoveu as centenas de pessoas que se deslocaram ao Cine-Teatro de Corroios onde já em 2011 os norte-americanos tinham pisado palco.

Longe da enchente desmesurada que verificámos no Route for Resurrection na sua última passagem pelo nosso país, estes ícones do metalcore mundial voltaram a comprovar o porquê de serem um dos grandes nomes do género e premiaram os fãs com uma enxurrada de temas chave de uma carreira que conta já mais de duas décadas.

Coube aos Terror Empire o primeiro acto da noite. Os rapazes de Coimbra podem não ter tido a enchente que se verificaria posteriormente mas nem por isso pouparam esforços em demonstrar o porquê de serem uma banda a ter no radar.
O seu segundo registo discográfico em formato LP, Obscurity Rising, a ser lançado a 14 de Julho pela Mosher Records e promete dar que falar, pelas malhas que foram avançadas (artigo aqui).
Em Corroios ainda se focaram num Empire Strikes Black que está prestes a fechar assim um belo capítulo na história destes thrashers que com ele correram o país mas que certamente irão abdicar de vários destes temas ao vivo de forma a encaixar o material novo.

Em Agosto, não muito longe de ali, esperamos ver uma setlist mais focada no difícil segundo álbum que demonstra um maior dinamismo sem cair no automatismo dos riffs simplesmente rápidos.


Seguiu-se a surpresa da noite. Os Black Bomb.A, a banda menos familiar de grande parte dos presentes, tomou o palco como se tivessem perante milhares e deram o litro do início ao fim.

Estes franceses com dois vocalistas fizeram tremer a estrutura com uma bateria avassaladora e debitaram o contraste de vozes de forma coesa perante um público defensivo.

A inércia, que não se voltou a repetir, pode ser explicada pelo falta de familiaridade dos portugueses com este projecto que certamente ganhou alguns fãs no final do seu set.

Quanto aos For The Glory há pouco a acrescentar ao que já temos vindo a verificar nos diversos recintos que vimos a banda a tocar.
Em 2004 já tinham sido a banda de abertura na estreia dos Hatebreed em Portugal, na mítica sala da Voz do Operário, e ao fim destes anos já podemos afirmar que, se uma se tornou numa das maiores referências mundiais (no seu género), a outra é a maior referencia nacional. Um título que se conquistou em palco e que se publicitou boca a boca. A verdadeira coroação do nosso underground.

Dificilmente encontramos na história do hardcore nacional uma banda com a sua dimensão. A setlist voltou a privilegiar os temas que todos esperamos ouvir: "All the Same", "Some Kids Have No Face", "All Alone"...


Mesmo sem tempo para os habituais momentos discursivos de Congas, o vocalista aproveitou para saudar a promotora Hell Xis, que corajosamente se atreve a lançar datas como esta, Suicidal Tendencies e Anthrax num verão vítima de "overdose de concertos", dedicando a poderosa "Fall in Disgrace".
Já a mais recente "110" fora dedicada a Rui "Mosher" (guitarrista dos Terror Empire" e criador da marca Mosher que é um dos grandes exemplos de empreendedorismo no nosso underground).

Sem surpresa o término ficou a cargo de "Survival of the Fittest" que continua a revelar-se o grande hino da banda.

Estes rapazes são selo de garantia de qualidade e é ao vivo que a comprovam. Corroios voltou a não ser excepção.


Este regresso de Jasta e companhia esteve longe do nível de desconforto que marcaram as últimas duas visitas a Portugal, uma neste mesmo recinto e outra na República da Música que por pouco ficava na memória pelas piores razões com Wattie dos The Exploited, claramente em esforço, a provar de uma forma pouco convencional que "Punk's Not Dead". A sauna da sala de Alvalade não fez diminuir o belo concerto que a banda de Connecticut proporcionou mas a quantidade de pessoas talvez tenha tornado a experiência claustrofóbica.

Desta vez, o cenário esteve num ponto de rebuçado e de salivar por mais.
Quem olhasse para a agenda talvez pudesse temer que este evento fosse a primeira "vítima" mas o belíssimo ambiente que as centenas de pessoas proporcionaram comprovou o porquê de "excesso de oferta", no que toca a nomes desta dimensão, ser coisa de facebook.

Não faltaram os famosos mosh pits que tão bem lhes conhecemos e não fora o fosso frente ao palco que diminui os níveis de energia vividos na sua dianteira.
Percorreu-se uma discografia que recentemente juntou The Concrete Confessional aos outros seis petardos.

"Bad Boys" serviu de genérico, como naqueles reles episódios de "Cops", e meteu tudo em sentido. Antecipava-se uma daquelas selvas que são tanto aplaudidas por quem as cria como por quem as assiste.
"To the Treshold" explodiu de seguida. Suaram-se os corpos e arranharam-se as vozes. Os coros colectivos surgiram espontâneos. Uns atrás de os outros neste cruzamento perfeito entre o hardcore convencional e o tom mais metálico e groovesco.
Será legítimo falar de clássicos?
"Ashes They Shall Reap", "Face What Consumes You","Live for This","Call for Blood"... subiu-se o tom de forma exponencial.
Aquele frontman que tão boas memórias nos traz ( RIP Headbangers Ball) voltou a demonstrar-se super comunicativo e orgulhoso da marca que já deixou na história da música pesada citando álbum atrás de álbum.
"Last breath", "Standing Alone", "Perseverence", "Defeatest" , "As Diehard as They Come"...
São demasiados temas chave para se focar este concerto numa apresentação de álbum acabando por soar a um saudosismo merecido sobre uma obra que sem inventar nada soube pegar em pormenores musicais que marcam toda uma geração, seja ela mais próxima do punk ou do metal.

O último álbum não fora posto num pedestal e nesse sentido até fora negligenciado mas, em boa verdade, alguém se importou?
"This is Now", "Straight to Your face" e um grande final ao som de uma demolidora "Destroy Everything" tornaram a coisa anárquica. Um chuto de adrenalina directa ao cérebro.

Dificilmente não poderíamos referir que, lá pelo meio, "I Will Be Heard" fora o maior sing along da noite.
Poderíamos enumerar algumas bandas que conseguem manter uma bela diplomacia entre dois pólos de origem diferente, e até poderíamos falar daquele capítulo do crossover... Mas será que alguma vez existiu na história dos concertos em Portugal uma exemplo de uma "ponte" como esta?

Os Hatebreed foram recebidos com as condições que merecem, com um público repleto de energia e com uma dinâmica que nunca pecaram em demonstrar. São mais uma daquelas bandas cujo trabalho em estúdio serve apenas de casulo para o que apresentam ao vivo.


Um estouro de concerto que premiou aqueles que não tiveram dúvidas em repetir a experiência vivida nas três passagens anteriores.

Não foram a nenhum desses? Então têm bons motivos para se arrependerem...

Texto: Tiago Queirós
Agradecimentos: Hell Xis
Agradecimento especial : Hintf Webzine e Mário Filipe Pires pela amável cedência das fotos. Podem encontrar todas as fotos aqui

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