21/05/2017

[Report] Mind Mending Benefit @ Sabotage Club 18-05-2017

Noite de viagens sensoriais, paisagens sonoras, momentos de introspecção e de explosões de catarse. Anestesiados pela intensidade mas arrebatados pelo vislumbre de uma banda cujo o sucesso não surgirá pelos moldes convencionais mas que se tornará alvo de culto. O tempo assim o dirá.

O Sabotage Club foi, mais uma vez, palco para o rock mais paisagístico e atmosférico, do Doom ao Stoner, a cargo dos Sinistro, My Master the Sun e Earth Drive, numa noite que aliou a música a uma nobre causa.

Este Mind Mending Benefit fora uma forma de alerta e consciencialização para o processo de recuperação das vítimas de AVC e como a música, como terapia, pode fazer parte disso mesmo. As receitas do evento reverterão na totalidade para a produção de um filme documental sobre a experiência de Filipe Falé (músico vítima de AVC durante um concerto em 2016).

A gravidade fora à partida posta em causa com a entrada do quarteto Earth Drive em palco.
Na sua meia hora de actuação, fizeram viajar os presentes em órbitas dificilmente heliocêntricas mas alcançando uma grande proximidade do astro.
Uma performance iluminada e poderosíssima. Excelente ao nível de coesão nas composições assim como na execução das mesmas.
O som amplificado e o frente a frente, que a sala permite, adicionou fervura ao que possamos ter escutado da discografia.

Com o passar dos minutos verificámos uma Sara (vocalista) mais solta e embebida na sonoridade envolvente e absorvente que os Earth Drive praticam. Um Stoner que soou por vezes a algo mais profundo... Algo mais espacial, subtilmente hipnótico ou psicadélico. Uma experiência transversal na capacidade de inserir peso e tom grave num contraste melódico. Um cocktail de texturas pastosas regadas a riffs. Um misto de sabores que terminou com "Time Machine" e que nos deixou a salivar por mais.

Apesar de uma sala intimista enfatizar as qualidades da banda do Montijo, o público do VOA Fest não deverá perder a oportunidade de os ver a por em pratica o que podemos escutar em Planet Mantra, nos EPs e quem sabe algum material novo...


Ricardo Falé, antes de dar o tiro de partida aos My Master the Sun, agradeceu aos presentes que responderam ao chamamento. Aquela que é hoje a mais famosa sala rock da Lisboa boémia, esteve bem composta numa quinta-feira que não necessitou de uma abençoada sexta com tolerância de ponto.
Os seus olhos espelharam emoção ao citar o irmão como ponto de origem deste evento.
Seguiu-se o spoken word de "Os Corvos Levantam Voo" que fez arrepiar a sala. O tal olhar, apontado no horizonte, tornou-se perfurante. Um momento de uma intensidade desconfortável que a cada segundo que passava elevava os níveis de ansiedade culminando naquele grito angustiante que é tanto verbalizado como instrumentalizado. Momento de puro sludge, desafiando os ouvintes a experiênciarem toda uma parafernália de sentimentos e emoções, tempos e tons.

Com a subida do guitarrista convidado, Carlos dos Asimov, alcançámos a melhor memória visual mas foi talvez "Maior que Eu" que alcançou a sonora numa prestação curta mas eficaz.

Nas brechas do rochedo, onde rompe a poética prosa de Patricia Andrade, vimos in loco o nascer de uma banda que está acima da sua própria moda. Os Sinistro, na sua forma unicamente colossal, merecem e serão reconhecidos como fenómeno de culto. O tempo assim o comprovará.
Roadburn; Graspop; "Semente" álbum do ano pela Loud e apontado em diversas listas; uma agenda que nos faz crer que é mais fácil vê-los no estrangeiro do que no próprio país; pouca exposição mediática; toda uma incerteza quando ao futuro e continuidade deste projecto...

Assistir a este capítulo sabe a banquete para um crescente público que cada vez mais se sacia com rock/metal experimental ou sensorial, seja ele proveniente de post, doom, stoner, ou outro carimbo qualquer que, em boa verdade, sempre partilharam ouvintes.
Há igualmente uma grande facilidade em chegar ao público que renuncia aos formatos de composição comuns e que nem por isso são fãs dos sons mais pesados. Aqueles que têm em Massive Attack, ou algo retirado/influenciado pela fornada de Bristol, uma referencia musical, terão neste super-grupo um achado...

Todavia, não se trata objectivamente destas conquistas. O culto não se explica, sente-se... nas camadas de som mastodôntico que, miraculosamente, não esmagam o tom cristalino de uma voz doce e viciante. Facilmente se cai na tentação de ver em palco uma espécie de Betty Gibons com atributos teatrais cuja experiência como actriz muito (e bem) contribui.

Sem surpresa vimos uma (verdadeira) apresentação do álbum que eleva os Sinistro a uma realidade distante (pelo menos ao nível mediático) do que anteriormente possamos ter verificado.


Dificilmente alguém se poderá queixar. A "Relíquia" é um tema a ser visto ao vivo em 2017. Não deixem escapar a próxima oportunidade.



Texto: Tiago Queirós
Fotos: Hugo Rebelo Fine Arte Photography 


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EARTH DRIVE

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