18/04/2017

[Report] Ghost + Zombi @ Sala Tejo Meo Arena

A escassas horas de o universo cristão celebrar a ressurreição de Cristo, a Sala Tejo em Lisboa serviu de altar da litúrgica prestação de Ghost que, mesmo sem morrer, ressuscitaram daquele que é, até à data, o momento mais controverso da história da banda.

A polémica que veio identificar diversos Nameless Ghouls dividiu fãs nas semanas que antecederam este concerto. O facto de se "descartabilizar" os músicos que têm acompanhado a figura chave de Papa Emeritus III (cujo o nome também fora tornado público) não caiu nada bem entre a comunidade heavy/ rock.

Por outro lado, o mentor deste projecto defende-se como o único compositor de uma discografia feita já de três álbuns de sucesso e dois EPs que também deram que falar.

Instaurada a polémica, maior a expectativa.
Longa fora a Via Sacra que se percorreu ao som dos Zombi, um duo norte-americano que preencheu o slot de abertura com o seu rock electrónico cheio de sintetizadores.

A dupla, que até pode seduzir os amantes de sonoridades experimentais, não cativou uma plateia em busca de um dos melhores exemplos de acessibilidade no espectro da música pesada contemporânea.


Paisagens sonoras que soaram por vezes a um revivalismo 80's, com todo o seu fascínio geracional sobre a temática Sci-Fi, não fascinaram pela falta de linha coerente face ao headliner. Talvez noutro contexto, quem sabe a abrir um bom concerto post-rock, nos deparássemos com outro resultado. A ideia que sobressaiu foi de estarmos a assistir in loco a uma jam session egoísta, daquelas que os músicos retiram mais prazer do que aquele que proporcionam.

Da última vez os Ghost tinham vindo acompanhados da dupla Dead Soul de Niels Nielson (um dos potenciais Nameless Ghouls do passado), que mesmo deslocados convenceram os lisboetas e demais. Já dos Zombi apenas se absorveu a mais pura especulação... será que Steve Moore e/ou A.E. Paterra voltaram a subir ao palco momentos depois?


Já passavam das 22h quando o blasfemo sexteto clerical subiu ao palco para pregar a antítese do proclamado divino. 


Ao som do hit "Square Hammer", presente no EP que baptizou a tour Popestar, fizeram-se ouvir os primeiros coros numa sala ampla e distante do que em final de 2015 tínhamos encontrado em Alcântara.

Tal como na Capela Sistina, do fumo branco surgiu o sumo pontífice, vestido a rigor para uma missa de tons escuros e sombrios.

O ritmo contagiante tornou o tema um clássico instantâneo e, pelos resultados ao vivo, um favorito dos inúmeros fãs da banda que de norte a sul se reuniram frente ao palco.
Sem surpresa, este fora a única novidade incluída numa setlist repetida quase na íntegra (apenas o opener "Spirit" e "If You Have Ghosts" ficaram de fora).

O leitor não se engane, esta constatação em nada diminui a magnitude de uma prestação imaculada e extremamente bem oleada, repleta de músicas antémicas que garantem o sucesso de qualquer concerto desta tour.

Mesmo quando a expectativa é grande, a adrenalina do primeiro tema nem sempre se mantém. "From the Pinnacle to the Pit" e "Secular Haze" garantiram que isso não acontecesse. 

Mais uma vez "Con Clave Con Dio" serviu de bandeira de um primeiro álbum que naturalmente vai sendo negligenciado face à evolução da fórmula dos Ghost que, especialmente com Meliora, demonstra retirar conhecimento do imediatismo do mainstream numa fórmula com mais de pop rock orelhudo do que do elitismo da música pesada. Um q.b. mais do que aceitável e incomparável, tornando-os únicos na mistura de elementos sonoros sublinhados pelas espectaculares características teatrais que adicionam em palco.


Há muito que se perdeu a necessidade bacoca de os referenciar a par de outros artistas e performers porque mesmo sem revolucionar não deixam de surpreender.


A subtil passagem para "Per Asfera Ad Inferi", que liga como unha e carne, não foi indiferente a ninguém com o público a soltar-se a cada refrão.

É difícil contornar uma única canção na construção deste report pois a setlist soa a uma compilação antológica como poucas bandas o conseguiram com apenas 7 anos de existência e com um cardápio tão reduzido.
O cheiro a incenso no ar. Os vidrais no pano de fundo. As freiras do Pecado (Sin Sisters). Na hora de comungar, como manda a tradição, não faltaram também as hóstias na primeira fila. Uma benção ao som de "Body and Blood".

Papa Emeritus III, nesta recta final do seu pontífice (que deverá terminar com o álbum já previsto para o final deste ano),  mostrou-se comunicativo e humorado na sua forma peculiar. 


O som de órgão de "Devils Church" deu tempo para "desformalizar" o (mui poco) Santo Sacerdote que pelos seus blasfemos e hereges testemunhos dificilmente alcançará a beatificação, quanto mais a canonização. 

Fiéis ao ceticismo e pouco incomodados com a ligeireza e descomprometimento com que se invoca a "besta", os presentes ecoaram uma sequência que se iniciou com "Cirice", que lhes valeu o Grammy de Best Metal Performance, passou por "Year Zero", um dos picos de Infestissumam, "Absolution" e "He Is" a reclamar para si o melhor momento da noite.
Já "Mummy Dust" fora apresentada como a arma mais pesada da artilharia num subtil apelo ao simpático mosh pit que lá se formou.

Do surf rock de "Ghuleh / Zombie Queen", audível nas cordas de um guitarrista especialmente efusivo, a "Rituals", que deliciou (não só) aqueles que se converteram a esta sinistra igreja desde o primeiro momento.
A derradeira despedida fora feita num encore com a habitual "Monstrance Clock", assumido pelo próprio Papa Emeritus III, num extenso discurso, como uma tradição cerimonial.

Papa Emeritus III ainda não compete com as multidões que o Papa Francisco terá, por exemplo, na sua visita a Portugal mas demonstra um crescente número de fiéis.

Se no Hard Club e no Paradise Garage tiveram casa desconfortavelmente esgotada, na Sala Tejo proporcionaram um espetáculo que em nada ficou atrás daquele que apontámos em 2015 como dos melhores do ano. 


Não há nada comparável ao primeiro impacto e, somente por isso, ficamos com a ideia que a primeira vez fora mais especial e que este sofreu de momentos demasiado replicados.
Sem um LP novo para mostrar e com uma agenda de concertos bastante cheia ainda tememos alguns efeitos secundários na plateia mas tal não se verificou: os que já tinham visto repetiram a dose, os estreantes saíram com aquele brilho nos olhos...

Abençoados fomos nesta que poderá ter sido a despedida deste sumo pontífice por terras lusas. Esperamos agora por novidades nestes tempos conturbados que a seita atravessa mas que aparenta não causar dano.

Os Ghost provaram em Lisboa que ainda há muito que esperar deles.



Texto: Tiago Queirós
Fotos: Joana M. Carriço (todas as fotos aqui)
Agradecimentos: Prime Artists

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