22/02/2016

[Report] Under The Doom 2016 @ RCA Club

O RCA Club, em Lisboa, acolheu, no passado fim de semana, 12 e 13 de fevereiro, mais um Under the Doom, este ano enriquecido com a presença dos irlandeses Primordial e dos ingleses Esoteric, a encabeçar o cartaz. A Notredame Productions foi a responsável por mais um excelente festival, com um total de 10 bandas a protagonizarem momentos arrepiantes de bom doom, nas suas variadas influências e sub-géneros.
O alinhamento da sexta-feira, dia 12, resistiu ao jogo Benfica – Porto e registou a maior afluência dos dois dias, mesmo com os concertos a iniciarem às 21h. O RCA Club foi enchendo a casa, ao longo da noite, de público ansioso para ver e ouvir (por ordem de atuação) NEVOA, FOSCOR, Painted Black e Primordial.

Os NEVOA iniciaram o festival, apresentando ao público lisboeta o seu projeto, ainda recente, nascido no Porto em 2014, mas que já conta com o álbum “The Absence of Void”, lançado no ano passado. Percebemos por que têm recebido críticas positivas por parte da imprensa especializada, pois rapidamente sentimos a assistência (que já era considerável) envolta no ambiente tenebroso criado pela banda. Em cada nota rasgada da voz de Nuno Craveiro, sente-se domínio sobre o público. Os temas de The Absence of Void calam a mente de quem ouve e produzem o cenário que observámos do primeiro andar do RCA Club (e que veríamos mais vezes, ao longo do festival): meia hora de público “colado” ao chão, rendido ao som black/doom dos portuenses. Ficou, assim, ligado o motor de arranque do festival.
Foi com grande satisfação que revimos os catalães FOSCOR, que nos visitaram no ano passado, acompanhando os britânicos Vallenfyre. Continuam a presentear-nos com os temas do seu último álbum Those Horrors Wither (2014), iniciando com Senescencia, em catalão. Desta vez, sentimos um público menos estranho à sonoridade invulgar desta banda que mantém o público refém das variações rítmicas e das alternâncias entre o registo gutural e limpo da voz de J.F. Fiar. Aliás, J.F. Fiar continua a desconcertar-nos com a sua voz e a lançar sobre o público o seu olhar aterrador, nos momentos de maior intensidade. Muito comunicativo, ainda ouviu o público protestar, quando anunciou o último tema. Destacamos a interpretação fortíssima do single Graceful Pandora e os aplausos entusiastas do público em mais um excelente concerto destes catalães, que celebram, este ano, o seu 15º aniversário.
Sempre que assistimos a um concerto dos Painted Black, perguntamo-nos por que não os vemos mais vezes. Soube-nos muito bem ouvir novamente temas de Cold Comfort (2010), com a sala já quase cheia, o que desencadeou grande motivação na banda, visível na comunicação com o público e nas movimentações em palco. Continuam a contar com a colaboração de Micaela Cardoso, mais uma vez presente na interpretação de Via Dolorosa, tal como na gravação do álbum. E nós continuamos a aguardar o lançamento do novo trabalho, que incluirá o tema Dead Time, com que também fomos presenteados nesta noite. Como sempre, foi um concerto intenso, no qual existe tempo e espaço para apreciar todos os elementos: cada instrumento e voz brilham per se. Torna-se difícil tirar notas, pelo que preferimos guardar no ouvido e memória o som arrepiante das cordas da guitarra de Luís Fazendeiro e a interpretação de Inevitability, tema pelo qual ansiamos sempre. 

E subiram ao palco os Primordial, recebidos com entusiasmo pela sala já cheia do RCA Club. Alan Averill forçou o público a entrar num estado diferente de vigília. Entrou no palco a exigir de imediato interação com os presentes e assim se manteve ao longo de todo o concerto, incentivando à participação ativa de todos no acompanhamento dos temas e apertando as mãos dos que se encontravam mais próximos. Surgiu envergando as suas peças de roupa rasgadas e pinturas faciais e corporais que ainda mais se destacam por serem as únicas no conjunto dos elementos da banda. Trata-se de uma figura tão dominante e carregada de energia que ficámos com a sensação de que olhou para cada um dos presentes e manteve interação com todos. O concerto iniciou com o tema Where greater men have fallen, colocando logo o público ao rubro, mas, em seguida, The end of Times e Babel’s Tower desencadearam igual entusiasmo e As Rome Burns mereceu refrão cantado em coro, com o público a gritar Sing, sing, sing to the slaves. Mesmo com toda esta atividade, o público não se cansou e não permitiu que a banda terminasse o concerto no momento previsto. Primordial voltaram ao palco com Sons of the Morrigan, despedindo-se, então, visivelmente satisfeitos com a sua passagem por Lisboa, e encerrando o primeiro dia do festival.

SEGUNDO DIA
Por confusão com os horários, chegámos atrasados ao segundo dia do Under the Doom mas ainda conseguimos apanhar o final do concerto dos My Master the Sun e houve ainda tempo para nos apercebermos do ambiente carregado de mensagem e sentimento que, em português, se espalhou pela sala. Apesar de já os conhecermos, ficámos a dever-lhes mais atenção numa próxima oportunidade. Seguir-se-iam Shattered Hope, Carma, Mourning Dawn, Orthodox e, a encerrar o festival, Esoteric.
O público tardou em chegar, neste segundo dia, com os concertos a começarem às 19.30. Os Shattered Hope iniciaram o concerto cerca das 20.30 e encontraram ainda uma assistência reduzida, que se foi compondo aos poucos. A banda grega de doom/death atmosférico tem vindo a apresentar o seu mais recente trabalho Waters of Lethe (2014). Começaram enérgicos mas necessitaram de algum tempo para aquecer a sala. Só a meio do concerto sentimos que se tinha estabelecido ligação com o público, no entanto, presenciámos bons momentos de doom e uma banda motivada e empenhada em dar o seu melhor.
Seguiu-se uma agradável surpresa chamada Carma. A banda de Coimbra editou, no ano passado, o seu primeiro álbum (Carma, 2015) e tem vindo a empreender um trabalho de exploração das vertentes funeral doom e black metal em português. Ao vivo, tem a preocupação de criar o ambiente que pretende, colocando velas ao longo do palco e preparando o público para o que vai assistir. Já contávamos com a batida fúnebre e os guturais mas foi, na verdade, o aspeto melódico o que mais nos surpreendeu e agradou. As composições não aborrecem e envolvem facilmente o público com as suas pausas carregadas de melancolia e tristeza, contrabalançadas por excelentes momentos melódicos, protagonizados pelas guitarras. O álbum Carma, que apresentaram na íntegra, merece ser ouvido com outra atenção, em casa.
Os franceses Mourning Dawn alteraram o ambiente da sala. O quarteto liderado por Laurent "Pokemonslaughter" (vocalista/guitarrista) fez um concerto forte, apesar de o vocalista se queixar de problemas com a voz. O público, pelo contrário, de nada se queixou e reagiu com entusiasmo à intensidade dos temas apresentados, incluídos no mais recente álbum Les sacrifiés (2014). A alternância entre a suavidade de alguns momentos, com a pausa doom, e a intensidade de outros, nos quais todos os instrumentos se conjugam com a voz, prendeu o público do início ao fim. No final da atuação, ouviram-se fortes aplausos a esta banda francesa que já contou com a sala mais composta.
Seguiram-se os espanhóis Orthodox, um duo de Sevilha, composto por baterista e vocalista/baixista. Apresentaram o seu projeto de doom experimental, inspirado no folclore religioso e no jazz, tendo lançado recentemente Axis (2015), o seu quinto álbum. A sonoridade, diferente, com um ritmo que parece incerto e aleatório, causou estranheza inicial mas depressa convenceu o público graças à perícia nos dois instrumentos, especialmente no baixo. Pareceu-nos, no entanto, que a voz carece de força e que tem dificuldade em sobressair como mais um instrumento da banda. Ainda assim, surpreenderam o público e foram bastante aplaudidos.
Com o público já a acusar algum cansaço, os Esoteric subiram, finalmente, ao palco com uma parafernália de instrumentos, fios, pedaleiras e, no entanto, sem microfone. Greg Chandler surgiu com o seu headset mic, como é habitual, e a banda iniciou o concerto, criando o ambiente pretendido, com o auxílio dos sons pré-gravados que transportaram a assistência para o universo dos seus temas, composto por lugares distantes, carregados de emoções e pensamentos de difícil encaixe. Quem se propõe a assistir a um concerto de Esoteric tem de estar preparado para sair de si e deixar-se conduzir pelos momentos de cadência fúnebre, mas sem passar ao lado de outros momentos, de intensidade crescente, durante os quais receámos que os pratos da bateria escapassem à força de Joe Fletcher, um baterista de peso (em todos os sentidos). A setlist foi composta por três temas do álbum The Maniacal Vale (2008) e outros três, do último Paragon of Dissonance (2011). Destacamos a interpretação de Circle (The Maniacal Vale, 2008), da qual gostámos particularmente. O público, esse, esteve verdadeiramente “ausente”, o que, neste caso, só significa que o objetivo da banda foi largamente atingido.
Foi mais um Under the Doom que terminou com balanço muito positivo. A Notredame Productions está, mais uma vez, de parabéns por promover um festival deste género que beneficiou, também, das excelentes condições oferecidas pelo RCA Club. Até para o ano. \m/

Texto: Sónia Sanches
Agradecimentos: Notredame Productions (Carlos Freitas) e à Arte Sonora e Joana Cardoso Photography, pela cedência das fotos acima. Todas as fotos aqui: Galeria 1º Dia | Galeria 2º Dia

Veja também: