09/10/2015

[Report] Venom Inc+Vader+guests @ RCA Club, Lisboa

No passado sábado, 26 de Setembro, a SFTD Radio marcou presença no RCA Club em Lisboa num final de tarde que se prolongou pela noite dentro.
Esta maratona de música pesada percorreu alguns dos sub-géneros clássicos, bem distintos entre si, sempre bem acarinhados pelos portugueses ao longo de décadas.
O honrado encargo de abrir uma noite destas ficou guardado para os portugueses Midnight Priest. O seu nome é bem conhecido pelos fãs do heavy metal tradicional, e está já agendado para outro evento da promotora Notredame (aniversário do Side  B com outros congéneres encabeçados pelos Enforcer (que regressam após abrirem para Overkill em Lisboa).
Depois de terem ganho a edição portuguesa do Wacken Metal Battle e marcado presença na última edição do Vagos Open Air, já com o novo frontman Lex Thunder, a banda de Coimbra voltou a atacar um misto de temas mais recentes, como o single "Hellbraker", e outros que não arredam pé da setlist como "Rainha da Magia Negra".
Com a sala ainda despida de multidões, estes pregadores do metal galopante, que tanto homenageia Judas Priest como Iron Maiden, demonstraram toda a sua virtude no pequeno espaço que lhes fora concedido no palco. Com as baterias de Vader e de Venom Inc preparadas no fundo, a distribuição do espaço não fora favorável à mobilidade do vocalista, ao destaque habitual na figura do baixista nem à plenitude do twin attack dos guitarristas. O próprio baterista ficou "escondido" na lateral mas no momento de discursar deixou uma curiosa mensagem aos presentes: tanto a banda como a plateia representavam bem o metal mas por outro lado, o que se passava atrás das cortinas era meramente negócio. As causas de tal "desabafo" não nos são conhecidas, o que é certo é que criaram um certo desconforto e inquietação na sala.
A linguagem corporal de um elemento da equipa desta tour, visivelmente estrangeiro, indicou uma certa agressividade na forma como zelou pela programação e de forma pouco simpática indicou o atraso de forma pouco subtil numa altura em que "Boleia com o Diabo" seria servida como despedida. O público, quer pela mensagem como pela atitude do que que pensamos ser um roadcrew, não teve qualquer dúvida em se demonstrar solidário com os "nossos" rapazes e em "bom" português sublinharam a insatisfação para com o paternalismo excessivo e desnecessariamente vistoso na altura de desmontar o material. Na óptica do público não passou de uma falta de respeito total e uma falta de sensibilidade clara visto que o tal "delay" não fora assim tão prolongado nem fora fruto de uma má gestão do tempo de palco. Fora apenas proporcional ao próprio set. Momentos como estes são desnecessários.
Um bem haja aos Midnight Priest que nos proporcionaram um belo final de tarde e souberam gerir as emoções de forma aparentemente exemplar.

Seguiram-se os históricos Filii Nigrantium Infernalium que mais uma vez não perderam a oportunidade de partilhar o palco com alguns dos seus ídolos. Já em Vagos o carismático vocalista tinha deixado claro que são grandes fãs de Venom mas o entusiasmo não se fez notar da mesma forma que quando partilharam o palco com Chronos.
Com a sala mais composta, espelhando bem que os raros concertos da banda não são desperdiçados, a banda do carismático frontman Belathauzer acabou por pagar a factura forçada pelo reduzido horário que lhes fora proposto. Cortaram na pregação aos seus fiéis, algo que faz parte de toda a experiência Filii ao vivo, mas não tiveram grande alternativa seja dita a verdade.
No que toca ao seu incansável ruído, que tanto apaixona como repudia os metaleiros, demonstraram, mais uma vez, que não estão para agradar a todos nem será com mais vinte anos de existência que isso mudará.
O velhinho EP Era do Abutre fora saudosamente relembrado logo no tiro de partida com "Abadia do Fogo Negro" mas percorreu-se um pouco por toda a carreira (como logo de seguida com o mais recente "Labyrinto" ou até mesmo "Eucunémia Matança") desta banda de contornos únicos no underground nacional. Chamem-lhes Black, Death, Thrash... Necro Rock'n'Roll, continuam a deixar bem claro o que se pode esperar do seu som.

As duas bandas de abertura, pela familiaridade criada e pelo que representam cada uma no seu contexto musical, atraíram o público mais pontual e de certa forma demonstraram efeitos no cartaz proposto. O mesmo não se poderá dizer dos dois actos seguintes.

Os franceses Witches tiveram um concerto apático e de poucas memórias. O público na sua generalidade deixou bem claro a falta de interesse, ou mesmo de reconhecimento daquela que é a primeira banda francesa com uma vocalista a praticar o que consideramos de música extrema, sem faltar nos guturais.
A dinâmica da casa, com altos e baixos no que toca à afluência, deve ter tido por esta altura os seus níveis mínimos ao longo dos seis concertos que presenciámos.
O vazio tornou-se constrangedor e a decepção fora visível na cara dos músicos.
Sibylle Colin-Tocquaine acusou algum cansaço nos vocais demasiado esforçados e acabou por ser a cara de uma actuação pouco inspirada.
O Speed Metal com determinados toques de Death não projectaram o peso que certamente desejariam na apresentação de "The Hunt", o mais recente álbum da banda. "The Cold", um dos temas apresentados, acabou por soar a ironia face à estática frieza de quem aplaudia pela formalidade e não pela emotividade. Já vimos piores prestações com maior benevolência. 
O término da actuação, antecedido com um prognóstico pouco fortuito de velocidade Thrash, foi feito ao som de "Jump With Fright" e "Riding and Hunting".

Com este picar de ponto inegável, a pressão ficou redobrada nos ombros dos londrinos Divine Chaos. Também vítimas da conjuntura, não tiveram oportunidade de se exporem em pleno nesta passagem dos colossos headliners pela capital portuguesa.
De qualquer forma a paisagem frente ao palco ía, a conta gotas, sendo retomada e proporcionalmente o visível nervosismo lá se ia dissipando.
Donos das sonoridades mais contemporâneas e "groovescas" da noite, os britânicos brindaram-nos com uma dose de Thrash moderno ecléctico que não se deixa limitar nos padrões comuns sem, no entanto, fugir em demasia a uma fórmula de efeitos seguros. Uma mistura de aspectos melódicos e aguerridos, com técnicas muito próprias do séc.XXI, desde o uso da 7ª corda nas guitarras (que proporciona muito do peso de géneros "jovens": do nu metal ao metalcore assim como no controverso djent) como a técnica de sweep picking escolhida em alguns solos. A tara da sua carga é acrescida de alguns kgs com mais uma corda extra no baixo mas principalmente no excelente trabalho do baterista que elevou a actuação do quinteto.
Atrás dos pratos esteve, nada mais nada menos, que James Stewart que poderá ter confundido algumas pessoas quando voltou a tomar as baquetas com Vader. O baterista está a cargo da percussão em ambos os projectos (e não só) e aceitou o desafio proposto nesta tour tocando duas vezes por noite! Desgaste? Nem aparente... Um autêntico polvo frenético (principalmente no âmbito dos clássicos do Death Metal) que não ficou indiferente aos admiradores do tecnicismo.
Os Divine Chaos por momentos relembravam subtilmente as noções de ritmo de uns Sepultura, de estética de uns Death e a harmonia diatónica de uns Arch Enemy. Uma banda que deixa bem claro que as suas influências são os nomes grandes do metal num âmbito geral e não num contexto singular. Uma miscelânea de pequenos pormenores que num todo acabou por reavivar um pouco quem sacrificou o jantar em prol da metalada.
Não se fez sentir uma década de carreira com os elementos muito "presos" e tensos face à sua musicalidade mas "Fields of the Fallen", "The Myth of Human Progress" e o single "Death Toll Rising" promoveram bem o tardio álbum de estreia (2014) A New Dawn in the Age of War. "No Man's a Land", do EP que durante bastante singularizava o seu trabalho discográfico, fechou uma actuação que queremos ver repetida após uma maior rodagem na quilometragem com todas as experiências inerentes.

Os polacos Vader, por sua vez, já não precisam de provar nada a ninguém. Os portugueses por diversas vezes saborearam o requinte do seu Death bem old-school e desta vez tiveram direito a um menu de degustação especial. 
O primeiro reparo após subirem o palco é mesmo a postura dominante e segura, digna de quem vive entre amplificadores e focos de luzes. Ninguém é particularmente fã de submissos, figuras frágeis ou demasiado tensas na cena metal in loco. Pelo contrário: valorizamos a confiança e a coragem de quem toma o palco como sendo seu e, sem surpresa, assim foi. Prometeram uma setlist pouco convencional, pondo de parte clássicos, apostando em algumas raridades do passado. Cumpriram com a sua palavra e não desiludiram, mais uma vez. 
A passagem recente pelo Paradise Garage não defraudou ninguém e certamente contribuiu para a vontade de voltar a terras lusas. Num ano de grande saudosismo perante os ícones do Death Metal, como se comprova por concertos sonantes ( Carcass, Suffocation, Obituary, Nile, etc...), os Vader voltaram a comprovar que são uma das grandes referências europeias ainda em actividade. Um concerto especial não fora premiado pela legião de fãs que volta e meia passeiam seu merchandise nos mais diversos concertos pelo país, talvez fruto da grande oferta, mas os "verdadeiros" fizeram questão de se fazerem presentes. 
Um lobo solitário no crowd-surf dinamizou um público demasiado gélido para a sessão de luxo de riffs na sua maioria do primeiro álbum como "Breath of Centuries", "Decapitated Saints", "Final Massacre" e "Reign Carrion". Não é por acaso que muitos "choram" a irónica morte do Death, que apesar de discordarmos conseguimos compreender. A figura imponente do baixista Tomasz Halicki parecia não caber sob as arcadas do RCA mas quem realmente encheu as medidas fora o membro fundador e eterno frontman Piotr Wiwczarek. Passados décadas continua a não deixar transparecer qualquer tipo de automatismos, ao contrário de outros elementos. Digno de referência, mais uma vez, é mesmo James Stewart. Aumentou o ritmo de forma alucinante e levou para casa o prémio de MVP na passagem desta tour por Lisboa. Este poderia muito bem ter sido o melhor momento da noite mas... 





Com o recinto bem mais cheio do que poderíamos imaginar pela tarde, os Venom Inc. foram recebidos com grande entusiasmo. 
Depois de Venom (de Cronos entenda-se) ter marcado a sua melhor prestação em Portugal no início de Agosto a fasquia subiu bastante para este projecto que junta dois dos fundadores deste ícone da história do metal. A figura mediática de Cronos sempre ocupou grande parte do imaginário do power trio e por isso mesmo não podemos contornar as referências ou comparações. Os fãs de Jeff "Mantas" Dunn e Anthony "Abaddon" Bray afirmam a legitimidade do título que envergam mas isso não os torna imunes ao inverso da moeda. Seriam os Venom Inc uma banda de covers deles próprios? Ou será esse o caso da banda "original" conduzida por músicos contratados? O que é certo é que em ambos os casos se verificaram bons concertos que em vários aspectos surpreendentes. No RCA o concerto fora mais teatral, com uma construção muito pensada e uma setlist estruturada de forma a ir crescendo de tema para tema. Não faltaram os clássicos. Ao anunciarem um show focado nos primeiros álbuns renunciaram os "fillers" que para grande maioria são desnecessários. 
Abriram com "Prime Evil", o tema que outrora inspirou o baptismo este projecto (M:pire of Evil), falhando em conseguir uma resposta imediata mas efectivando a primeira sessão de headbanging que fora descomprimindo o público que aos poucos cedia perante os deuses do Rock'n'Roll que pregam ainda alguns (dos presentes) não eram nascidos. "Die Hard", "Dont' Burn the Witch", "Die Like An Angel" e "One Thousand Days in Sodom" deram seguimento à sessão nostálgica que relembrava os gigantes dos anos 80 que com o imaginário pagão e o fast-pace que na época os distinguia de tudo o resto. 
O seu Rock conduzido pelo poder do baixo não está associado ao blues de uns Motörhead mas o seu papel é igualmente de grande valor. Demolition, baixista e vocalista, não pecou em personalizar esta face dos Venom (inc) e demonstrou-se sempre uma mais valia. Escusado será dizer que os pontos altos da noite passaram pela recta que sem dúvida justificou toda a maratona de concertos: primeiro com "7 Gates of Hell" e "Sons of Satan", e atingindo todo o seu esplendor com "Welcome to Hell", "Black Metal" e "Countress Bathory". Hinos cantados até acabar o folgo pelas várias dezenas que marcaram presença frente ao palco. 
No entretanto, Mantas, num dos momentos que se dirigiu ao público, confessou a paixão pelo nosso país que o recebeu de braços abertos desde que decidiu por cá "ancorar" e fixar residência. Subtilmente fez referência ao poder histórico de um dos temas de sua autoria e que deu origem a todo um género que hoje associamos ao metal mais obscuro proveniente da Escandinávia. Bom, pelo menos no cunho que deu ao nível de terminologia. A apatia que marcou grande parte dos concertos perdeu-se por completo com "Witchin Hour" com direito a mosh-pit num final arrebatador e de autêntica consagração. No fim a ideia que ficou foi de uma guitarra com maior protagonismo sem perder os traços elementares da banda na sua génese histórica. Concluíndo: os Venom Inc foram uma agradável surpresa para todos, tantos os que duvidavam como para os que guardavam desta formação um carinho especial. No fim ainda se fez ouvir um arriscado elogio: "os verdadeiros Venom!". 
Quanto a isso a SFTD Radio não toma posições mas pode afirmar em primeira mão que 2015 premiou da melhor forma os fãs destas pedras basilares do universo metaleiro, tanto em quantidade como, principalmente, em qualidade! Perdoem o anglicismo mas de facto "We layed our souls to the Gods Rock'n'Roll".




Texto: Tiago Queirós
Fotos e vídeos gentilmente cedidos pelo RuPa Nekronos da Nekronos Promotion Hell (obrigado!)
Agradecimentos: Notredame Productions

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